Ele pedalou por 39 países e levou três anos para perceber o verdadeiro sentido da viagem
Adorjan Illes percorreu cerca de 46 mil quilômetros, trabalhou em troca de hospedagem e descobriu que viajar não significava apenas continuar avançando
Antes de partir, Adorjan Illes media a viagem em quilômetros, fronteiras e destinos alcançados. Quatro anos depois, voltou para casa com 39 países no caminho e uma conclusão que demorou quase toda a expedição para aparecer: a liberdade não estava em chegar mais longe, mas em recuperar o controle sobre o próprio tempo.
Por que Adorjan Illes começou uma volta ao mundo de bicicleta?
Adorjan trabalhava havia mais de sete anos como engenheiro em uma empresa de telecomunicações. O emprego era seguro e não lhe parecia ruim, mas deixara de representar um desafio. Aos poucos, a sensação de estar repetindo uma rotina previsível começou a pesar mais do que o medo de abandonar a estabilidade.
Ele decidiu trocar o escritório por uma bicicleta carregada com barraca, saco de dormir, ferramentas e os poucos objetos necessários para permanecer na estrada. O plano era atravessar países, testar os próprios limites e descobrir o que aconteceria quando quase todas as decisões do dia dependessem apenas dele.
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Como ele conseguiu pedalar por 39 países com pouco dinheiro?
O orçamento diário era extremamente reduzido. Adorjan acampava sempre que possível, cozinhava refeições simples e aceitava a hospitalidade de pessoas que conhecia pelo caminho. Em diversos lugares, moradores ofereciam comida, um quintal para montar a barraca ou um quarto onde ele pudesse descansar.
- Dormia em barraca durante grande parte da viagem
- Limitava os gastos diários com comida
- Cozinhava refeições simples na estrada
- Recebia ajuda de moradores de pequenas comunidades
- Fazia trabalhos voluntários em troca de hospedagem
- Permanecia mais tempo onde encontrava acolhimento
O vídeo “Adorjan Illes Intro video – around the world by bicycle”, publicado pelo próprio viajante, reúne imagens da expedição e apresenta os 46 mil quilômetros percorridos em 39 países.
Em regiões mais caras, como Austrália e Nova Zelândia, manter o orçamento se tornou particularmente difícil. Ele relatou que chegou a procurar alimentos descartados por supermercados. Em outros momentos, encontrou projetos e hospedagens que ofereciam comida e acomodação em troca de algumas horas de trabalho.
O que tornou os primeiros meses tão difíceis?
A bicicleta carregada chegava a pesar cerca de 50 quilos, enquanto a rotina podia incluir aproximadamente 100 quilômetros de pedaladas em um único dia. Embora Adorjan já praticasse esportes, seu corpo precisou de cerca de seis meses para se adaptar ao esforço repetido, às noites em barracas e à falta de recuperação adequada.
O desgaste não era apenas físico. Trânsito perigoso, frio, calor, tempestades e dúvidas sobre onde dormir faziam parte da viagem. Ainda assim, ele afirmou que não pensou seriamente em abandonar o percurso, mesmo durante situações em que se sentiu ameaçado ou sem uma solução imediata.
Quando a volta ao mundo deixou de ser uma corrida por distância?
Durante os primeiros anos, Adorjan mantinha a atenção voltada para o próximo destino. Havia sempre outra fronteira, outro trecho do mapa e mais quilômetros a cumprir. Somente no terceiro ano ele percebeu que a preocupação constante em avançar estava reproduzindo, dentro da viagem, a mesma pressa que desejava deixar para trás.
A mudança ficou evidente quando chegou à península de Yucatán, no México, em fevereiro de 2018. Ele encontrou um hotel que oferecia alimentação e hospedagem em troca de trabalho voluntário e decidiu permanecer ali durante quatro meses. Pela primeira vez, ficar parado passou a fazer tanto sentido quanto continuar pedalando.
| Quatro anos vistos não pelo mapa, mas pela maneira de viajar | |||
| INÍCIO | Objetivo principal Percorrer grandes distâncias e alcançar o próximo país | Relação com o tempo Dias organizados por metas, quilômetros e fronteiras | A viagem ainda funcionava como uma prova de resistência |
| MEIO | Mudança gradual Conversas e encontros começam a importar mais | Relação com o tempo Alguns lugares deixam de ser apenas pontos de passagem | A distância perde espaço para as experiências locais |
| 3º ANO | Decisão decisiva Permanecer quatro meses trabalhando no México | Relação com o tempo Ficar parado deixa de ser interpretado como atraso | A jornada passa a valer mais do que a chegada |
| RETORNO | Resultado visível 39 países e aproximadamente 46 mil quilômetros | Resultado pessoal Uma compreensão diferente sobre liberdade e escolhas | O número final já não explicava sozinho a viagem |
Essa pausa contrariava a lógica com que ele havia iniciado a expedição, mas acabou se tornando uma das experiências centrais. O viajante deixou de enxergar permanência como interrupção e começou a tratar cada encontro como parte legítima do percurso.
Como a viagem mudou sua relação com outras pessoas?
Adorjan partiu com receios naturais sobre estradas desconhecidas e encontros com desconhecidos. Ao longo do caminho, porém, ficou impressionado com a quantidade de pessoas dispostas a ajudá-lo. Muitas ofereciam abrigo antes mesmo que ele pedisse, especialmente quando perguntava onde poderia montar a barraca com segurança.
A distância também modificou sua relação com a família. Ele costumava entrar em contato aos domingos, quando encontrava conexão com a internet, e percebeu que as conversas se tornavam mais profundas à medida que se afastava de casa. A ausência física reduziu a rotina automática e aumentou o valor dos momentos de comunicação.

O que Adorjan trouxe da volta ao mundo além dos quilômetros?
A expedição terminou em 23 de junho de 2019, após 1.473 dias, 39 países e uma distância divulgada entre 45.500 e 46 mil quilômetros. A pequena diferença aparece porque algumas fontes arredondam as 28 milhas percorridas, mas todas descrevem uma viagem de aproximadamente quatro anos.
Em seu site oficial, Adorjan apresenta a experiência como uma transformação pessoal, não apenas como uma conquista esportiva. Depois do retorno, publicou um livro de fotografias e realizou mais de cem palestras. A principal história que passou a contar não era a de alguém que pedalou mais longe, mas a de um viajante que precisou atravessar quase todo o percurso para descobrir que liberdade também significa poder decidir quando seguir e quando permanecer.
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