Ele não morde primeiro: o tubarão que derruba vários peixes com uma única chicotada no cardume
Uma cauda quase tão longa quanto o corpo transforma velocidade, pressão e flexão da coluna em uma arma de caça
No instante em que alcança um cardume, esse tubarão não abre a boca para realizar o primeiro ataque. Seu corpo trava, a parte traseira se ergue e uma cauda quase tão longa quanto o restante do animal dispara sobre a água, transformando dezenas de peixes agrupados em alvos vulneráveis.
Por que o tubarão-raposa possui uma cauda tão desproporcional?
O animal citado na pauta não é o tubarão-lixa, nome usado para espécies de hábitos bem diferentes. Os representantes do gênero Alopias são conhecidos no Brasil como tubarões-raposa. O grupo reúne três espécies viventes, todas reconhecidas pela parte superior da nadadeira caudal extremamente alongada.
No tubarão-raposa-pelágico, Alopias pelagicus, a cauda representa aproximadamente metade do comprimento total. Um exemplar com 3,5 metros, por exemplo, pode ter quase metade dessa medida concentrada na nadadeira. A estrutura não funciona apenas como instrumento de natação: ela participa diretamente de uma das caçadas mais incomuns do oceano.
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O que acontece segundos antes do golpe atingir o cardume?
Ao encontrar sardinhas ou outros peixes agrupados, o predador acelera em direção à borda do cardume. Em vez de atravessar o grupo mordendo uma presa por vez, ele abaixa a cabeça, recolhe parcialmente as nadadeiras peitorais e freia o avanço. Esse movimento faz a região posterior subir rapidamente.
A sequência da caçada envolve etapas bem definidas:
- Aproximar-se do cardume em velocidade;
- Posicionar o corpo diante ou ao lado dos peixes;
- Recolher as nadadeiras peitorais para alterar a inclinação;
- Flexionar intensamente a coluna e levantar a cauda;
- Lançar a ponta da nadadeira sobre o grupo;
- Retornar para recolher os peixes atordoados.
No vídeo “[Thresher Shark] Sleek, Poetic … and Deadly”, o canal National Science Foundation News apresenta o movimento de chicote usado pelo tubarão e explica como a anatomia de sua coluna ajuda a suportar a flexão extrema durante o ataque.
O golpe pode ocorrer de cima para baixo ou lateralmente, dependendo da posição do predador diante das presas. Então, o tubarão não precisa acertar cada peixe individualmente. A força aplicada em uma região densa do cardume permite incapacitar vários animais em uma única investida.
Como o tubarão-raposa transforma a cauda em um chicote?
O movimento começa na parte anterior do corpo e se propaga pela coluna em direção à ponta da nadadeira. A cauda comprida amplia a velocidade na extremidade, de maneira semelhante à ponta de um chicote comum. Quando ela atravessa a água, atinge diretamente alguns peixes e ainda produz uma perturbação hidráulica ao redor do ponto de impacto.
Filmagens analisadas por pesquisadores mostraram bolhas surgindo durante alguns golpes. A hipótese é que a velocidade e a pressão permitam a formação temporária de cavitação ou a liberação de gases dissolvidos na água. O efeito mais bem demonstrado, porém, é o impacto da própria cauda, capaz de atordoar ou matar diversas sardinhas antes que o tubarão retorne para comê-las.
O que os estudos registraram durante os ataques?
Uma pesquisa realizada nas Filipinas analisou vídeos de tubarões-raposa-pelágicos caçando sardinhas próximas à Ilha Pescador. Os cientistas dividiram o ataque em preparação, golpe, recuperação e coleta das presas. Em todos os eventos avaliados, a cauda foi usada como instrumento ativo de caça.
| Fase da caçada | Movimento observado | Resultado esperado | Vantagem para o predador |
|---|---|---|---|
| Aproximação | Avanço em direção ao cardume | Redução da distância até as presas | Prepara o ângulo do ataque |
| Preparação | Cabeça abaixada e nadadeiras recolhidas | Elevação rápida da região posterior | Carrega o movimento do chicote |
| Golpe | Cauda lançada sobre ou ao lado dos peixes | Atordoamento de várias presas | Amplia o resultado de um único ataque |
| Recuperação | Retorno à postura de natação | Reestabilização do corpo | Permite uma nova aproximação |
| Coleta | Retorno aos peixes incapacitados | Captura com pouca perseguição adicional | Economiza energia durante a alimentação |
O estudo publicado na PLOS ONE examinou 25 eventos de caça registrados em vídeo. Os animais conseguiram consumir mais de uma sardinha depois dos golpes, confirmando que a estratégia é particularmente eficiente contra presas que nadam em grupos densos.
A cauda do tubarão-raposa realmente ultrapassa 80 km/h?
Análises divulgadas a partir das filmagens apontaram velocidades extremas na ponta da cauda, com estimativas que chegaram a cerca de 80 milhas por hora, aproximadamente 129 km/h. Outros cálculos e descrições usam valores mais baixos. A diferença ocorre porque medir com precisão uma estrutura flexível em movimento dentro da água depende da qualidade do vídeo, do ângulo e dos pontos adotados como referência.
Por isso, afirmar apenas que a cauda se movimenta a 80 km/h pode até subestimar algumas estimativas, mas não existe uma velocidade fixa para todos os golpes. A intensidade muda conforme o tamanho do animal, a distância até o cardume e o tipo de movimento. O dado mais seguro é que a extremidade acelera o suficiente para atingir peixes com enorme força e produzir bolhas na água.

Por que esse ataque é mais eficiente do que morder uma presa por vez?
Um cardume confunde predadores porque centenas de corpos mudam de direção quase simultaneamente. Escolher um único peixe e persegui-lo pode consumir energia sem garantir sucesso. O golpe de cauda resolve esse problema ao atingir uma área, desorganizar a formação e deixar algumas sardinhas temporariamente imóveis ou feridas.
Pesquisas recentes também indicam que a anatomia das vértebras muda ao longo do corpo, oferecendo estabilidade na região anterior e flexibilidade próxima da cauda. Assim, a coluna funciona quase como uma catapulta biológica. O predador não depende de dentes enormes para iniciar a caça: ele transforma metade do próprio comprimento em uma arma hidráulica reutilizável.
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