Ela pulou de um iceberg no mar congelado, e não foi acidente
Atletas do mergulho livre encaram água perto de -1,8 °C, mas a ciência mostra que o choque térmico, e não a hipotermia, é o primeiro risco do salto
Muita gente imagina que quem cai no mar gelado morre aos poucos, vítima do frio que avança pelo corpo. A ciência mostra outra coisa: o risco maior aparece no primeiro minuto, com o choque térmico. É esse instante que atletas do mergulho no gelo treinam para controlar quando saltam de um iceberg por vontade própria, numa prática que tem nome, preparo e limites claros.
Por que alguém pularia de um iceberg no mar congelado?
O salto faz parte do mergulho livre em água gelada, modalidade em que o atleta desce em apneia, sem cilindro de ar. Uma das referências é a holandesa Kiki Bosch, retratada no documentário Descent, de 2020. Segundo o guia oficial de produções da Screen Australia, ela mergulha sem roupa de neoprene em algumas das águas mais frias do planeta, da Groenlândia à Finlândia.
O cenário ajuda a entender o impacto. Pelo glossário do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos Estados Unidos (NSIDC), o bloco é um pedaço de gelo que se soltou da ponta de uma geleira terminada na água. Ou seja, nasce de neve acumulada em terra. Já a água salgada ao redor só congela a -1,8 °C, segundo o guia de gelo marinho do NSIDC, faixa típica do Oceano Ártico coberto de gelo.
O choque térmico ameaça antes da hipotermia no mar gelado
O primeiro perigo da água gelada não é a hipotermia, e sim o choque térmico. Em revisão publicada em 1989 no periódico Clinical Science, o fisiologista Mike Tipton concluiu que essa reação pode matar ou incapacitar muito antes de a temperatura interna despencar. Para ele, ela responde pela maioria das mortes anuais por imersão em águas abertas.

O mecanismo é rápido. Segundo a Universidade de Portsmouth, onde Tipton pesquisa, o frio na pele provoca um suspiro involuntário de 2 a 3 litros de ar. Com a cabeça submersa, o volume supera o cerca de 1,5 litro de água salgada considerado dose letal para afogamento. A pele fria também acelera o coração e eleva a pressão arterial.
A queda da temperatura do corpo abaixo de 35 °C, que define a hipotermia segundo o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS), vem depois e também exige hospital. Para entender como anda o gelo da região onde esses saltos acontecem, vale ver um panorama recente sobre o Ártico.
Treino repetido reduz a reação do corpo à água gelada
Atletas do mergulho no gelo não saltam de um iceberg sem preparo. Uma revisão sistemática com metanálise publicada no periódico Journal of Thermal Biology, assinada por Tipton e outros pesquisadores, reuniu estudos sobre imersões repetidas. O choque térmico diminui depois de cerca de quatro imersões, com queda média de 14 batimentos e de 8 respirações por minuto.
Os autores avaliam que essa adaptação pode reduzir o risco de afogamento, mas a intensidade varia entre os estudos e entre as pessoas. Habituação não torna ninguém imune: o frio segue capaz de incapacitar o corpo com o passar dos minutos. Por isso, mergulho no gelo e mergulho livre em água gelada não são atividades para fazer sozinho nem sem orientação qualificada.
O que fazer se você cair em água gelada sem querer?
A orientação de Tipton é boiar antes de tentar nadar. Deite de costas, fique o mais imóvel possível e espere o choque passar, o que costuma levar de 60 a 90 segundos, segundo a Universidade de Portsmouth. Debater-se aumenta o pânico e o esforço do coração. Depois do resgate, tremores, fala arrastada, respiração lenta e confusão indicam hipotermia, uma emergência médica.
O passo prático começa hoje: se você nada em mar, rio ou represa de água fria, treine boiar de costas numa piscina, com supervisão, até a posição sair sem esforço. Se o fascínio pelos icebergs do Oceano Ártico falar mais alto, passe antes por um médico e procure uma escola de apneia certificada. Comece devagar e depois me conta como foi.

Se o frio extremo desperta sua curiosidade, há outro lugar onde o gelo resiste contra todas as expectativas. A história fica no meio de um deserto.
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