Ela construiu uma casa com garrafas PET e agora está exportando seu método de construção de casas sustentáveis em apenas 20 dias
Advogada boliviana já construiu 300 casas com garrafas PET em 5 países usando 82 unidades por metro quadrado
♻️ Uma piada do marido virou 300 casas de garrafa para quem não tinha teto
“Dá pra construir uma casa com esse monte de PET”, reclamou ele, irritado com o quintal lotado de garrafas. Ingrid Vaca Diez ouviu a ironia, levou a sério e transformou lixo plástico em moradia para centenas de famílias na América Latina. A próxima parada pode ser o Brasil ⬇️
A primeira casa levou quatro anos para ficar pronta. A segunda, bem menos. A partir da terceira, Ingrid Vaca Diez já tinha desenvolvido um método que permitia erguer paredes, teto e acabamento em apenas 20 dias, com dez voluntários e milhares de garrafas PET que iriam para o lixo. O projeto nasceu em 2000 na cidade de Warnes, no departamento de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Mais de duas décadas depois, já cruzou fronteiras e entregou moradia digna para famílias em situação de extrema pobreza na Argentina, no México, no Panamá e no Uruguai.
Como uma advogada sem formação em engenharia descobriu o método?
Com curiosidade e teimosia. Ingrid era advogada, administradora de empresas e artesã autodidata. Guardava garrafas PET em casa para reutilizá-las em trabalhos manuais. O marido, incomodado com o volume crescente de material no quintal, disparou em tom de deboche que ela já tinha plástico suficiente para construir uma casa inteira. A frase saiu como ironia. Ingrid recebeu como convite.
Na mesma época, ela recebeu uma carta de uma menina chamada Claudia, moradora do bairro que leva o nome do pai de Ingrid, o ex-prefeito Alfredo Vaca Diez. A criança pedia apenas um quarto para a família. A advogada juntou a provocação do marido ao pedido da menina e começou a pesquisar formas de transformar garrafas plásticas em material construtivo.
O resultado foi um processo que ela mesma descreve como simples:
- As garrafas PET de dois litros são preenchidas com materiais descartáveis, como sacolas plásticas, papel, areia ou terra, formando blocos rígidos e leves.
- Esses blocos são empilhados e amarrados entre si com arames ou cordas, criando a estrutura das paredes.
- Uma massa feita de barro, cal, cimento, açúcar e linhaça é aplicada sobre as garrafas, fixando tudo e dando acabamento.
- O revestimento final esconde completamente o plástico. A casa pronta tem aparência de construção convencional.
Veja todos os detalhes da casa no canal Al Jazeera:
Quantas garrafas são necessárias para erguer uma casa inteira?
A primeira residência construída por Ingrid tinha 170 metros quadrados e consumiu aproximadamente 36 mil garrafas PET de dois litros. O número impressiona, mas faz sentido: o cálculo do projeto indica uma média de 82 garrafas por metro quadrado de parede.
Com o aperfeiçoamento da técnica, Ingrid passou a usar também garrafas de vidro e de 600 ml, ampliando as possibilidades conforme a disponibilidade de material em cada região. A maior casa do projeto chegou a 196 metros quadrados.
O tempo de construção caiu drasticamente ao longo dos anos. Enquanto a casa de Claudia levou quatro anos para ser concluída por falta de voluntários e material, hoje a equipe consegue entregar uma moradia completa em 20 dias de trabalho coletivo, com a participação obrigatória dos futuros moradores.
Por que Ingrid exige que as famílias trabalhem na própria casa?
Porque a construção não é doação. É processo. Ingrid repete com frequência que não entrega casas prontas. Ela ensina a fazer e exige participação. “Quando você trabalha na casa, você dá mais valor. Não é só um presente”, explica a boliviana em entrevistas concedidas à imprensa brasileira.
A filosofia tem três objetivos declarados:
- Oferecer moradia digna. Todas as casas de garrafa são antiterremoto, têm isolamento térmico e acústico. As paredes grossas, preenchidas com terra e revestidas de barro, mantêm a temperatura interna estável, reduzindo a necessidade de aquecimento no inverno e de ventilação artificial no verão.
- Ensinar ecologia na prática. Os futuros moradores aprendem a enxergar o resíduo plástico como recurso. Muitos passam a replicar o método em suas comunidades, ampliando o alcance do projeto sem depender da presença de Ingrid.
- Capacitar para o trabalho. Famílias que participam da construção adquirem habilidades em alvenaria, preparação de massa e acabamento, conhecimentos que podem ser usados em outras obras.
Em 2026, a rede de voluntários e líderes comunitários formados por Ingrid já permite que o método seja replicado de forma independente. O projeto Casas de Botellas deixou de depender exclusivamente da fundadora. Oficinas de capacitação formam novos construtores em comunidades vulneráveis de toda a América do Sul e do México.

O método pode funcionar no Brasil?
Ingrid acredita que sim, e com vantagens. O Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do planeta e enfrenta um déficit habitacional que afeta milhões de famílias. A combinação desses dois problemas cria exatamente o cenário onde as casas de garrafa PET fazem sentido: excesso de matéria-prima descartada e escassez de moradia acessível.
A boliviana já manifestou interesse em iniciar construções no país, começando por Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Para ela, o povo brasileiro tem uma cultura de reciclagem mais consolidada e é receptivo ao trabalho voluntário, dois fatores que facilitam a coleta de material e a organização dos mutirões.
As limitações existem. O método artesanal é mais lento que a construção industrializada. A dependência de voluntários torna o ritmo imprevisível. E questões regulatórias, como aprovação de projetos e normas de habitação, variam de município para município. Nenhuma dessas barreiras, porém, impediu o avanço em outros países com desafios semelhantes.
Uma garrafa no lixo ou uma parede de pé?
O projeto Casas de Botellas não resolve sozinho o problema habitacional da América Latina. Ingrid sabe disso. Mas prova que criatividade, trabalho comunitário e vontade política podem transformar o que seria poluição em estrutura, e o que seria descarte em dignidade. Mais de 300 famílias dormem hoje sob tetos erguidos com aquilo que o mundo jogou fora.
Se a história de uma advogada boliviana que ouviu uma piada do marido e decidiu levar a sério faz você olhar diferente para a garrafa vazia da sua mesa, compartilhe este texto. A próxima casa pode começar com o plástico que está na sua lixeira.
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