Ela comprou um farol abandonado por quase nada numa ilha deserta da Noruega, hoje cobra R$ 5 mil a diária
Ex-funcionária da ONU compra farol abandonado por preço simbólico em ilha deserta da Noruega e transforma a diária em R$ 5 mil
🏠 Um farol abandonado, uma ilha sem estrada e uma mulher com coragem sobrando
Elena Hansteensen largou o cargo na ONU, comprou um farol desativado numa ilha de 0,67 km² no Círculo Polar Ártico e fez dele um hotel que a revista Travel and Leisure colocou entre os melhores pequenos hotéis do mundo. A história começa com uma decisão que todos ao redor acharam loucura ⬇️
Não tem estrada. Não tem loja. Não tem carro. Só pedra, mar, vento e um farol de 1912 que ficou vazio depois que a automação dispensou os faroleiros em 2003. Quando o governo norueguês colocou o Litløy Fyr à venda, ninguém quis. Nem a prefeitura local. Elena Hansteensen, que até então negociava crises humanitárias no Oriente Médio pelo Conselho Norueguês de Refugiados ligado à ONU, viu o anúncio, visitou a ilha e decidiu que aquele seria o lugar onde recomeçaria a vida. Comprou o farol em 2006 por um valor que ela mesma descreve como simbólico. Quase duas décadas depois, a diária no seu pequeno hotel ultrapassa 6 mil coroas norueguesas e a lista de espera atravessa continentes.
Como uma ilha sem nada se tornou um dos hotéis mais desejados do mundo?
Com paciência, reforma e uma proposta radical: oferecer o oposto de tudo. O Littleisland Lighthouse fica na ilha de Litløya, no arquipélago de Vesterålen, duzentos quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico. O acesso é feito de barco, em uma travessia de 15 minutos a partir da vila de pescadores de Vinje, no município de Bø. A ilha inteira tem 0,67 km², menos que um parque urbano médio.
Elena abriu três quartos duplos na antiga casa dos faroleiros. Cada um tem vista panorâmica para o oceano e para as ilhas Lofoten no horizonte. A hospedagem inclui todas as refeições, preparadas com ingredientes locais, peixe fresco, ervas e frutas colhidas na própria ilha. Também estão incluídos a travessia de barco, um tour guiado pelo farol e acesso à biblioteca com lareira.
A estadia mínima é de duas noites. E o motivo é simples: uma noite não basta para desacelerar. Elena diz que os hóspedes precisam de pelo menos 24 horas para parar de olhar o celular e começar a enxergar o mar.

Quem era Elena Hansteensen antes de virar faroleira?
Uma profissional de logística humanitária. Antes de chegar à Noruega ártica, Elena trabalhou em zonas de conflito no Oriente Médio, coordenando operações pelo Conselho Norueguês de Refugiados, vinculado ao sistema das Nações Unidas. A rotina era feita de aeroportos, reuniões de crise e decisões sob pressão.
A mudança não foi capricho de férias. Elena se instalou na ilha como moradora permanente. Vive ali o ano inteiro, incluindo os meses de inverno, quando a temperatura despenca e a escuridão polar dura quase 24 horas. É a única habitante fixa de Litløya. Divide o tempo entre a hospedagem, a manutenção do farol e o trabalho voluntário como responsável pela biblioteca itinerante do arquipélago.
A imprensa norueguesa acompanhou a história desde o início. A emissora estatal NRK filmou documentários sobre Elena em 2006 e 2011. A TV holandesa fez um episódio inteiro da série “Floortje naar het einde van de wereld” sobre ela. A BBC britânica incluiu o farol no programa “Mortimer & Whitehouse Gone Fishing”. Cada reportagem trouxe uma nova leva de reservas.
Por que a Noruega estava vendendo faróis abandonados?
Porque manter estruturas históricas em ilhas remotas custa caro quando elas deixam de ter função operacional. Entre 2005 e 2006, a Administração Costeira Norueguesa (NCA) colocou à venda 20 faróis ao longo da costa do país. A automação tornou os faroleiros desnecessários. O governo preferiu transferir os imóveis para particulares dispostos a preservá-los, em vez de arcar com a deterioração.
A legislação norueguesa exige que os compradores mantenham o acesso público às propriedades e preservem o patrimônio histórico. Elena aceitou as condições e começou a reformar o complexo com o arquiteto Stein Halvorsen.
O cenário se repete em vários países. Governos vendem faróis desativados, e compradores criativos os transformam em negócios:
O que os hóspedes encontram ao chegar na ilha?
Encontram silêncio. E depois percebem que o silêncio tem camadas. O vento no topo do farol soa diferente do vento na beira da água. O grito da águia-rabalva que nidifica na ilha corta o ar sem aviso. As orcas que passam ao largo às vezes se aproximam o bastante para serem vistas da janela do quarto.
As atividades disponíveis seguem a lógica do lugar:
- Caminhar pela ilha inteira, o que leva menos de uma hora, passando por vestígios de assentamentos da Idade da Pedra.
- Explorar a caverna Troll, com 40 metros de profundidade e formação estimada em 100 mil anos.
- Remar de caiaque pelo litoral recortado, observando aves marinhas e focas.
- Ler na biblioteca com lareira, com vista para o oceano e para as Lofoten, sem obrigação de fazer absolutamente nada.
No verão, o sol da meia-noite não se põe. No inverno, a aurora boreal dança sobre o farol. As duas estações atraem públicos diferentes, mas o motivo é o mesmo: desaparecer do mundo por alguns dias.

Um farol abandonado pode mesmo virar um negócio viável?
O de Elena prova que sim. A combinação de história, isolamento e hospitalidade autêntica criou uma proposta que nenhuma rede hoteleira consegue replicar. Não se trata de luxo convencional. Não há spa, não há piscina, não há concierge. O que existe é uma ilha inteira para você, um oceano até onde a vista alcança e uma anfitriã que trocou os corredores da ONU pelo vento do Ártico norueguês.
Se a história de Elena prova alguma coisa, é que o valor de um imóvel não está no preço de compra, mas no que se constrói depois. Um farol que ninguém quis virou um dos hotéis mais cobiçados do planeta. Às vezes, a melhor oportunidade é aquela que todo mundo deixou passar.
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