Eduardo Galeano, renomado escritor uruguaio: “Conheço pessoas profundamente cultas que não sabem ler ou escrever porque culta é aquela que é capaz de ouvir a outra”
Ser uma pessoa culta significa conhecer muitos livros, acumular diplomas ou dominar informações?
Ser uma pessoa culta significa conhecer muitos livros, acumular diplomas ou dominar informações? Para o escritor uruguaio Eduardo Galeano, a resposta vai muito além da educação formal.
Em uma reflexão que contraria ideias tradicionais sobre inteligência e conhecimento, ele defendeu que a capacidade de escutar o outro é um dos principais sinais de cultura — uma visão que também questiona a maneira como a sociedade avalia a sabedoria humana.
O que Eduardo Galeano considerava essencial para uma pessoa culta?
Galeano afirmou conhecer pessoas profundamente cultas que não sabiam ler nem escrever, enquanto outras, mesmo com doutorados, demonstravam uma visão limitada do mundo. Para ele, a formação acadêmica não determina, sozinha, a capacidade de compreender a realidade.
Sua definição de cultura estava ligada a uma habilidade frequentemente negligenciada. Entre os elementos que considerava fundamentais, estavam:
O que realmente define uma pessoa culta?
A reflexão de Eduardo Galeano vai além dos diplomas e destaca três atitudes fundamentais para compreender o mundo.
Saber ouvir
Dar atenção genuína ao que os outros dizem, sem desconsiderar suas experiências ou opiniões.
Respeitar diferentes perspectivas
Reconhecer que ninguém possui todas as respostas e que outras visões podem ampliar o conhecimento.
Compreender a natureza
Entender que os seres humanos fazem parte de um mundo que merece atenção, cuidado e respeito.
A reflexão desafia a ideia de que o conhecimento pode ser medido apenas por certificados, títulos ou pela quantidade de informações armazenadas.
Por que ouvir os outros pode revelar mais sabedoria do que um diploma?
Para Galeano, acumular informações não é o mesmo que desenvolver compreensão. Ele chegou a comparar a capacidade humana de conhecer com a de um computador, capaz de armazenar uma quantidade enorme de dados sem que isso, por si só, represente cultura.
A diferença estaria na maneira como cada pessoa se relaciona com o conhecimento. Escutar exige abertura para reconhecer experiências diferentes das próprias, rever certezas e compreender realidades que não fazem parte da vida individual.
"Nous vivons dans un monde où l’enterrement est plus important que la mort, le mariage plus que l’amour et le corps plus que l’intellect. Nous vivons dans la culture de l’emballage, qui méprise le contenu." Eduardo Galeano https://t.co/SGhIvH1DVX
— Paroles d’auteurs (@Paroles_auteurs) October 14, 2026
Como a visão de Galeano questionava os modelos tradicionais de educação?
O escritor também criticava sistemas educacionais que tentam impor uma única visão de mundo ou uma escala rígida de valores. Na perspectiva dele, ensinar não deveria significar simplesmente transmitir regras de quem supostamente sabe para quem ainda não sabe.
Essa concepção pode ser resumida em três princípios que atravessam sua reflexão sobre educação:
- Diálogo em vez de imposição: aprender também significa considerar argumentos diferentes.
- Respeito ao conhecimento individual: cada pessoa carrega experiências que podem contribuir para a compreensão do mundo.
- Questionamento das certezas: diferentes perspectivas podem revelar aspectos da realidade que uma única interpretação não alcança.
Essa postura valoriza uma educação baseada na troca de experiências, e não apenas na transmissão unilateral de informações.
Como o exílio influenciou a trajetória de Eduardo Galeano?
Nascido em Montevidéu, em 1940, Galeano construiu uma carreira marcada pelo jornalismo, pela literatura e pela análise da história política e social da América Latina. O golpe de Estado uruguaio de 1973 levou o escritor ao exílio, primeiro na Argentina e depois na Espanha.
Ele retornou a Montevidéu em 1985, com o fim da ditadura no Uruguai, e permaneceu na cidade até morrer, em 2015, aos 74 anos.
Entre suas obras mais conhecidas estão As Veias Abertas da América Latina, publicada em 1971, e a trilogia Memória do Fogo. Seus livros exploram desigualdades, memória histórica e as experiências de pessoas frequentemente deixadas à margem das narrativas oficiais.
Qual é a principal lição deixada pelo escritor uruguaio?
A reflexão de Galeano continua relevante porque questiona uma associação comum entre prestígio acadêmico e sabedoria. Ter acesso à educação pode ampliar oportunidades e conhecimentos, mas não garante, automaticamente, empatia, respeito ou disposição para compreender outras pessoas.
Sua mensagem aponta para uma conclusão simples e provocadora: ser culto não é apenas saber falar sobre o mundo, mas também estar disposto a escutar quem o enxerga de outra maneira.
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