Edifício projetado pelo ‘Pritzker’, Kéré coloca a arquitetura africana no Rio de Janeiro
A criação da chamada Biblioteca dos Saberes, no Rio de Janeiro, é apresentada como um marco urbano e cultural com forte carga histórica.
A criação da chamada Biblioteca dos Saberes, no Rio de Janeiro, é apresentada como um marco urbano e cultural com forte carga histórica.
Prevista para 2029, a obra de 40 mil metros quadrados, projetada pelo escritório Kéré Architecture, liderado por Francis Kéré, combina biblioteca, espaços de convivência, áreas ao ar livre e infraestrutura para grandes atividades culturais na região simbólica da antiga Praça Onze.
O que é a Biblioteca dos Saberes e qual sua proposta principal
A Biblioteca dos Saberes pretende ir além do modelo tradicional de empréstimo de livros, funcionando como uma “casa da sabedoria” dedicada a saberes populares, memória afro-brasileira e pesquisa sobre samba e cultura urbana.
O projeto faz parte da operação Praça Onze Maravilha, com investimentos de 1,75 bilhão de reais em parceria público-privada.
Com salas de leitura, ateliês, auditório para mais de mil pessoas, cafés, áreas sombreadas e terraços, o edifício é pensado como espaço permeável e aberto ao fluxo do entorno.
A ideia de “biblioteca viva” visa atrair moradores de favelas próximas, turistas, pesquisadores e sambistas, mantendo o local em uso cotidiano.
Kéré Architecture embraces the city's history and wisdom for the Rio De Janeiro Public Library: https://t.co/xQQNO84SR7 #architecture pic.twitter.com/Ljbe5N7lZr
— World Architecture (@WACommunity) December 22, 2025
Como a biblioteca se articula com o Sambódromo e o Carnaval
O projeto estabelece forte diálogo físico e simbólico com o Sambódromo de Oscar Niemeyer, buscando ativar o espaço do Carnaval durante todo o ano.
Caminhos, terraços e áreas de permanência conectam visual e funcionalmente a biblioteca ao circuito do samba, integrando cultura, lazer e pesquisa.
Uma passarela ligará a biblioteca ao monumento a Zumbi dos Palmares, funcionando como área de espera e encontro para desfilantes e visitantes.
Essa estrutura reforça a memória da população negra, valoriza um marco histórico e oferece suporte logístico aos eventos carnavalescos, sem afastar o foco em educação e convivência.
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Biblioteca dos Saberes: Kéré Architecture’s Cultural Center and Library in Rio de Janeirohttps://t.co/QlJH0d97oC pic.twitter.com/IvGepGlEyK
— ParametricArchitecture (@parametricarch) December 19, 2025
De que forma o projeto valoriza a memória negra e os saberes populares
A localização remete à diáspora africana no Rio, próxima ao antigo Cais do Valongo e à Pequena África, áreas centrais na história da escravidão e da formação da maioria negra e parda da cidade.
A biblioteca busca tornar essa herança mais visível por meio de curadoria de acervo, programação cultural e mediação comunitária.
- “Árvore do conhecimento”: cilindro vertical que conecta níveis, inspirado em assembleias sob árvores na África Ocidental.
- Referências a espécies nativas dos jardins cariocas, criando vínculo com o território local.
- Ênfase em memória afro-brasileira, samba, Carnaval e saberes de favelas e periferias.
Quais são as principais características arquitetônicas do projeto
O desenho explora volumes em diferentes alturas, terraços escalonados e circulações que evocam a topografia das encostas do Rio.
Em vez de um bloco único, o conjunto se abre em camadas, oferecendo vistas, áreas externas sombreadas e graduações de silêncio e movimento.
As atividades se distribuem do ambiente mais silencioso ao mais dinâmico, equilibrando estudo, cultura e entretenimento.
A torre central, onde elementos se sobrepõem e se abrem para a luz, simboliza a formação da sociedade brasileira, marcada pela mistura indígena, africana e europeia.
Como a Biblioteca dos Saberes pode influenciar a arquitetura afro-brasileira
A direção de Francis Kéré, arquiteto africano vencedor do Prêmio Pritzker, cria nova referência para profissionais negros no Brasil.
Em um campo ainda marcado por baixa representatividade, o projeto legitima repertórios e visões de mundo historicamente pouco considerados pela arquitetura oficial.
A obra tende a se tornar estudo de caso sobre cidade, cultura e raça, ao aproximar técnicas contemporâneas de saberes tradicionais e experiências de favelas e periferias.
Sua combinação de infraestrutura cultural, memória da escravidão e valorização do samba reforça a ambição de integrar arquitetura, memória e uso cotidiano em um mesmo equipamento público.
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