Edgar Morin (104 anos), filósofo, sobre a felicidade: “A velhice é um terreno fértil para a criação e a rebelião”
Discussão sobre o envelhecimento deixou de se limitar à perda de capacidades físicas e passou a incluir outros aspectos da vida.
Ao longo das últimas décadas, a discussão sobre a velhice e o envelhecimento deixou de se limitar à perda de capacidades físicas e passou a incluir criatividade, propósito, participação social e valores humanos, compreendendo a velhice como fase fértil em que corpo, mente, história, cultura, afetos e sociedade se entrelaçam na perspectiva do pensamento complexo de Edgar Morin.
O que é envelhecer com criatividade e rebeldia
Na velhice, criatividade significa reorganizar a rotina, aprender algo novo, rever crenças e manter presença ativa na vida pública. A rebeldia aparece como recusa à invisibilidade e ao conformismo, afirmando o direito de continuar participando da vida social e intelectual.
Nessa chave moriniana, a pessoa idosa reconhece em si “todas as idades” vividas e assume-se como sujeito capaz de se reformar continuamente.
Aceita a vulnerabilidade, mas não renuncia ao desejo de conhecer, amar, criar e intervir no mundo, resistindo à redução da velhice à doença ou à passividade.
Como o projeto de vida fortalece o propósito na velhice
Pesquisas em longevidade indicam que ter um projeto de vida — ainda que simples — está associado a maior bem-estar psicológico e melhor saúde.
Esse propósito atua como motor interno que sustenta curiosidade e disposição, articulando passado, presente e futuro em um fio condutor de sentido.
Esses projetos costumam reunir elementos que organizam o cotidiano e reforçam a sensação de continuidade na terceira idade.
De modo geral, envolvem:
- Uma atividade ou causa significativa para a pessoa idosa;
- Uma rotina básica estruturada em torno desse foco;
- Vínculos sociais relacionados ao projeto ou à causa;
- A percepção de ainda ter algo a construir, aprender ou transmitir.
Débat avec Edgar Morin et Eric Zemmour (1/4)
— Tariq Ramadan (@TariqRamadan) July 6, 2021
Edgar Morin aura 100 ans le 8 juillet. Voilà une série de 4 vidéos d'une discussion que nous avions eue chez "Zemmour & Naulleau". On y entend la pertinence des propos d'Edgar Morin et les errances des projections d'Eric Zemmour. pic.twitter.com/1joezifLkD
Como o pensamento complexo amplia a compreensão do envelhecimento
O pensamento complexo de Morin critica a fragmentação que separa biologia, psicologia e humanidades, dificultando ver o idoso como sujeito integral.
Envelhecer passa a ser entendido como fenômeno multidimensional, marcado por incertezas, fragilidades, criatividade e auto-organização.
Articular saberes como medicina, sociologia, filosofia, neurociência e artes permite superar a imagem do idoso apenas como paciente.
Nessa visão, políticas de cuidado, educação permanente, saúde e cultura devem dialogar, nutrindo vínculos, pensamento crítico, participação cidadã e a dimensão simbólica e espiritual da existência.
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Quais valores humanos influenciam a qualidade de vida na velhice
Em contextos de crise e desigualdades, valores humanos tornam-se decisivos para a forma de envelhecer. Amizade, solidariedade e cooperação reduzem o isolamento, oferecem apoio emocional e reforçam o sentimento de pertencimento social, compondo a “antropoética” proposta por Morin.
O amor como cuidado e respeito, a amizade como presença e escuta, a solidariedade como apoio concreto e o contato com as artes como elaboração da história de vida deixam de ser acessórios.
São componentes fundamentais da saúde, da cidadania e do reconhecimento do idoso como parte ativa de uma comunidade de destino.
Quais desafios e possibilidades marcam envelhecer no século XXI
Envelhecer hoje implica lidar com avanços tecnológicos, mudanças no trabalho, transformações familiares e incertezas globais, mas também com mais acesso à informação, saúde e espaços de participação.
A velhice pode se tornar um laboratório vivo de complexidade, em que se cruzam o individual e o coletivo, o local e o global.
A combinação entre propósito, curiosidade contínua, educação voltada à complexidade e laços humanos sólidos aponta para uma velhice com identidade própria.
Mais do que sobreviver por mais tempo, trata-se de viver com consciência das interdependências e desejo de reformar a si e à sociedade, em direção a uma civilização mais solidária e cuidadosa com todas as gerações.
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