Durante décadas, pedras deixaram trilhas sozinhas no chão seco do Vale da Morte. Em 2014, o mistério caiu quando gelo fino e vento foram vistos empurrando as rochas pela planície
Água rasa, noites congelantes e placas de gelo movidas pelo vento explicam os longos rastros deixados pelas rochas de Racetrack Playa
Em Racetrack Playa, no Parque Nacional do Vale da Morte, rochas aparentemente imóveis deixavam rastros de dezenas ou centenas de metros sem testemunhas do deslocamento. O mistério das pedras deslizantes começou a ser resolvido quando pesquisadores observaram que água, temperaturas abaixo de zero, gelo extremamente fino e ventos relativamente leves precisam aparecer na sequência certa.
Como as pedras deslizantes conseguem atravessar Racetrack Playa?
A Racetrack Playa é o fundo extremamente plano de um lago temporário que permanece seco durante grande parte do tempo. Rochas que caem das montanhas próximas chegam à superfície e, em determinadas ocasiões, deixam sulcos compridos na lama, criando a impressão de que atravessaram o deserto sozinhas. Algumas chegam a pesar centenas de quilos.
O movimento observado cientificamente não depende de ventos violentos empurrando diretamente as pedras. O mecanismo registrado envolve um lago raso temporário, congelamento durante noites frias e grandes placas de gelo fino que começam a se deslocar quando o Sol aquece a superfície.
O que precisa acontecer para uma pedra começar a se mover?
A combinação é incomum porque várias condições precisam coincidir. O local precisa receber água suficiente para formar uma lâmina rasa, a temperatura noturna deve cair abaixo de zero e o gelo formado precisa resistir como uma placa contínua, mas permanecer fino o bastante para se mover quando começa o degelo.
- Água acumulada sobre a planície.
- Temperaturas noturnas abaixo de zero.
- Gelo fino formado sobre a água.
- Aquecimento provocado pelo Sol.
- Ventos capazes de movimentar grandes placas de gelo.
Este vídeo mostra diretamente as famosas rochas de Racetrack Playa e o ambiente onde aparecem seus longos rastros, ajudando a visualizar por que água, gelo e vento são fundamentais para o fenômeno observado pelos pesquisadores.
Quando as pedras deslizantes foram finalmente vistas em movimento?
O avanço decisivo ocorreu no inverno de 2013. Pesquisadores haviam instalado uma estação meteorológica, câmeras e pedras equipadas com sensores GPS. Em 20 de dezembro daquele ano, mais de 60 rochas participaram de um dos maiores eventos registrados durante o estudo. Os resultados foram publicados em agosto de 2014.
No período entre dezembro de 2013 e janeiro de 2014, algumas pedras instrumentadas acumularam deslocamentos de até 224 metros em vários eventos. Foi a primeira observação científica direta do mecanismo, encerrando décadas de hipóteses que incluíam ventos extremos, redemoinhos e camadas espessas de gelo.
Por que uma camada de gelo tão fina consegue empurrar rochas?
As medições mostraram placas de gelo com aproximadamente 3 a 6 milímetros de espessura. Elas não levantavam as pedras nem funcionavam como enormes blocos congelados. Em vez disso, grandes painéis flutuantes pressionavam lateralmente as rochas enquanto se deslocavam sobre a água rasa.
| Condição observada | Valor aproximado |
|---|---|
| Espessura do gelo | 3 a 6 mm |
| Velocidade do vento | Cerca de 3 a 5 m/s |
| Velocidade das pedras | Cerca de 2 a 6 m/min |
| Movimento registrado | Mais de 60 rochas em um evento |
A grande área das placas permite que o vento exerça força sobre o gelo, que então empurra várias pedras simultaneamente. O estudo publicado na PLOS ONE registrou velocidades de poucos metros por minuto, lentas o suficiente para que o movimento possa passar despercebido quando visto de longe.
Por que os rastros permanecem no chão depois que a água desaparece?
Quando as placas de gelo empurram as rochas, a superfície abaixo está molhada e macia. As pedras deslizam ou raspam sobre a lama, abrindo sulcos que acompanham seu percurso. Como diferentes placas podem mudar de direção conforme vento e água se movimentam, os rastros também apresentam curvas e mudanças bruscas.
Depois, a água evapora sob o clima extremamente seco do Vale da Morte. A lama endurece novamente e preserva temporariamente as marcas, fazendo parecer que as pedras atravessaram uma superfície completamente seca. Na realidade, os rastros foram produzidos quando a playa ainda estava molhada.

Por que as pedras deslizantes podem ficar anos sem mudar de lugar?
O fenômeno não acontece em qualquer inverno. É preciso haver precipitação suficiente para formar o lago temporário justamente quando as noites estão frias o bastante para congelá-lo. Depois, o Sol e o vento precisam quebrar e movimentar as placas antes que a água desapareça.
Por isso, uma pedra pode permanecer imóvel durante anos antes da próxima combinação favorável. O mistério não era uma força desconhecida escondida no deserto, mas uma sequência rara de processos comuns que, juntos, transforma alguns milímetros de gelo em força suficiente para deixar marcas gigantes na paisagem.
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