Dois reatores empurram este gigante sobre o gelo até placas de quase 3 metros desabarem sob o casco
A proa não corta a superfície congelada como uma lâmina, mas transforma o peso de 33 mil toneladas em uma força esmagadora
No meio do Oceano Ártico, uma embarcação de dezenas de milhares de toneladas avança onde navios comuns ficariam presos em poucas horas. Em vez de cortar o gelo como uma lâmina, esse gigante sobe sobre a superfície congelada e usa o próprio peso para fazê-la desabar, abrindo uma rota navegável atrás de si.
Por que o quebra-gelo nuclear foi criado para enfrentar o Ártico?
As rotas marítimas do extremo norte atravessam regiões cobertas por gelo durante boa parte do ano. Sem embarcações especializadas, cargueiros que transportam combustíveis, minérios, equipamentos e mantimentos podem ficar cercados por placas congeladas, sem força suficiente para avançar ou retornar.
A propulsão nuclear oferece uma vantagem decisiva nesse ambiente remoto. Os reatores produzem calor, que gera vapor para movimentar turbinas e alimentar os motores elétricos ligados às hélices. Assim, o navio dispõe de grande potência por longos períodos, sem depender de reabastecimentos frequentes em portos distantes.
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O que acontece quando o casco encontra uma placa congelada?
A proa de um quebra-gelo não possui o mesmo desenho afilado encontrado em muitos navios rápidos. Sua parte frontal é larga, arredondada e inclinada para permitir que a embarcação avance parcialmente sobre o gelo. O peso concentrado nessa região curva a placa até que ela não consiga mais sustentar a carga.
A operação depende de vários elementos trabalhando juntos:
- Manter potência suficiente para avançar contra a resistência;
- Fazer a proa subir sobre a borda da placa;
- Concentrar o peso do navio sobre o gelo;
- Empurrar os fragmentos para os lados e sob o casco;
- Usar as hélices para afastar pedaços acumulados;
- Recuar e investir novamente quando a camada é irregular.
No vídeo “75 000 h.p. The Biggest Nuclear Icebreaker”, o canal Timelab Pro acompanha uma viagem pelo Ártico e mostra um quebra-gelo nuclear atravessando placas espessas enquanto abre passagem para outras embarcações.
Quando o gelo é muito espesso ou forma uma crista compactada, a primeira tentativa pode não ser suficiente. O comandante recua, reposiciona a embarcação e avança novamente. Então, cada investida transforma o peso e a força de propulsão em golpes sucessivos contra a barreira congelada.
Como o quebra-gelo nuclear atravessa quase 3 metros de gelo?
Os navios russos do Projeto 22220 foram desenvolvidos para romper continuamente gelo plano com aproximadamente 2,8 metros de espessura em condições específicas. Essa capacidade se aproxima dos 3 metros frequentemente citados, mas não significa que a embarcação mantenha a mesma velocidade diante de qualquer placa ou crista congelada.
Cada unidade utiliza dois reatores de água pressurizada RITM-200, ligados a um sistema turboelétrico. A eletricidade alimenta três motores de propulsão, cada um conectado a uma grande hélice. Juntos, eles entregam cerca de 60 megawatts ao sistema propulsor, potência necessária para manter o casco avançando quando a resistência aumenta.
Quais números mostram a força dessas embarcações?
O Arktika, primeiro navio moderno dessa classe, mede aproximadamente 173 metros de comprimento e 34 metros de largura. Seu deslocamento máximo supera 33 mil toneladas. Em águas abertas, pode passar de 20 nós, porém sua velocidade cai drasticamente durante a abertura de uma rota em gelo espesso.
| Característica | Dimensão aproximada | Função durante a travessia |
|---|---|---|
| Comprimento | 173,3 metros | Distribuir estrutura, máquinas e áreas operacionais |
| Largura máxima | 34 metros | Abrir um canal largo para navios acompanhados |
| Deslocamento | Mais de 33 mil toneladas | Fornecer peso para romper a superfície congelada |
| Reatores | 2 unidades RITM-200 | Produzir energia térmica para o sistema turboelétrico |
| Potência propulsora | Cerca de 60 MW | Movimentar três hélices em condições extremas |
| Gelo contínuo de projeto | Até aproximadamente 2,8 metros | Permitir avanço lento em placas planas e espessas |
As especificações não devem ser confundidas com a capacidade de atravessar qualquer massa congelada. Cristas formadas pela colisão de placas podem atingir profundidades bem maiores sob a água. Nesses pontos, a embarcação pode precisar procurar uma passagem menos compactada, atacar o obstáculo várias vezes ou receber apoio de outro navio.
Como o quebra-gelo nuclear evita ser esmagado pelo próprio gelo?
O casco recebe reforços nas regiões que suportam os maiores impactos. A faixa próxima à linha d’água utiliza aço resistente e estruturas internas capazes de distribuir a pressão. Em modelos anteriores da classe Arktika, a parte externa da zona de contato podia alcançar cerca de 48 milímetros de espessura, acompanhada por um segundo casco e espaços de proteção.
O formato também reduz o risco de aprisionamento. Laterais inclinadas ajudam o gelo a deslizar para baixo ou para os lados, em vez de pressionar diretamente a embarcação. Sistemas de lastro podem transferir água entre tanques e alterar a inclinação do navio, fazendo o casco balançar e se libertar quando as placas se fecham ao redor.

Por que essas máquinas são essenciais para as rotas do extremo norte?
A principal função não é realizar viagens solitárias até o polo, mas abrir e manter canais para cargueiros menos preparados. Depois que o quebra-gelo rompe a camada e afasta os fragmentos, outros navios seguem pela faixa de água aberta, normalmente mantendo distância e obedecendo às orientações da tripulação que lidera o comboio.
Segundo a Rosatom, os quebra-gelos do Projeto 22220 foram planejados para conduzir embarcações pelo Ártico e romper gelo de até cerca de 3 metros. Porém, mesmo com reatores capazes de operar durante anos, a autonomia prática continua limitada por alimentos, manutenção, peças, condições meteorológicas e resistência da tripulação.
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