Disseram que ele tinha dificuldade de atenção na escola, mas aos 13 anos já era formado em biologia e aos 15 pesquisa enzimas capazes de digerir plástico
Conheça a trajetória do jovem mexicano que saiu da sala de aula comum para pesquisar soluções contra o plástico.
Um menino entrou em uma sala de aula universitária aos nove anos depois que a escola disse que ele tinha déficit de atenção. Aos 13, era o graduado mais jovem da história da Universidade de Guadalajara. Aos 15, pesquisa enzimas capazes de decompor o plástico que o mundo não sabe como eliminar.
Quem é Ian González Santos e como ele chegou até aqui
Ian Emmanuel González Santos concluiu sua graduação em Química Farmacêutica e Biologia no Centro de Ciências Exatas e Engenharia da Universidade de Guadalajara, o CUCEI, em quatro anos, enquanto cursava simultaneamente um mestrado internacional em biologia molecular e citogenética. Em dezembro de 2023, aos 13 anos, recebeu o diploma na cerimônia de formatura. Em janeiro de 2024, iniciou o doutorado. “Minha história é uma combinação de sonhos e sacrifícios, pandemia, trabalho árduo, zombaria, mas também muitas satisfações e conquistas”, disse na ocasião.
O reitor da CUCEI, Marco Antonio Pérez Cisneros, admitiu que a instituição não tinha precedente para receber um aluno de graduação de nove anos. “Recebemos Ian inicialmente com muita surpresa, pois não estamos acostumados com isso”, declarou. “Os professores, a princípio incertos, depois se entusiasmaram porque acreditaram no projeto.” A coordenadora do programa, Susana Guerra Martínez, foi além: “O mundo é literalmente dele.”

O problema que ele decidiu enfrentar tem décadas e não tem solução fácil
O foco central da pesquisa de González Santos é a decomposição do PET, o tereftalato de polietileno usado em garrafas de bebidas e embalagens de alimentos. O material é leve, resistente e barato, exatamente por isso permanece no ambiente por séculos após o descarte. Os números do relatório Global Plastics Outlook, da OCDE, deixam o cenário em perspectiva:
Seu trabalho de doutorado atual também abrange a segurança da água, aplicando metagenômica para analisar o material genético do Lago Chapala, o maior lago do México. Em entrevistas, ele descreveu uma rotina que inclui atletismo, música e videogames, e define seu objetivo como “contribuir para a humanidade”.
Como uma enzima consegue desmontar uma garrafa plástica
Uma garrafa de PET é uma longa cadeia de moléculas repetidas. Enzimas funcionam como cortadores de precisão, fragmentando essas cadeias em componentes químicos básicos que podem ser reutilizados. Em 2016, um artigo publicado na revista Science identificou pela primeira vez a bactéria Ideonella sakaiensis 201-F6, capaz de produzir enzimas que hidrolisam o PET e o consomem como fonte de energia. A enzima natural era promissora, mas lenta demais para qualquer aplicação prática.
O salto veio em 2022, quando uma equipe da Universidade do Texas em Austin, liderada por Hongyuan Lu e Hal S. Alper, publicou na revista Nature os resultados da FAST-PETase, uma enzima modificada com cinco mutações específicas identificadas por um algoritmo de aprendizado de máquina. Ela decompôs quase completamente o PET pós-consumo de 51 produtos diferentes em cerca de uma semana, a 50 graus Celsius. Os pesquisadores ainda fecharam o ciclo, usando os monômeros recuperados para resintetizar PET virgem.

A tecnologia funciona, mas o verdadeiro gargalo está na triagem
Enzimas que digerem plástico precisam de PET limpo, separado e pré-tratado para maximizar a área de superfície de contato. O conteúdo misturado de uma lixeira de reciclagem convencional não atende a esse requisito. A maioria dos pesquisadores da área considera a reciclagem enzimática um complemento aos métodos mecânicos, não uma substituição à redução do desperdício ou à construção de sistemas de coleta mais eficientes. Sem triagem adequada, mesmo a enzima mais avançada para antes de começar.
A escala industrial ainda é o maior desafio. A empresa francesa Carbios anunciou em março de 2026 que pretende construir sua fábrica em Longlaville e iniciar a produção no início de 2028, dependendo de financiamento e acordos de pré-venda. Nos Estados Unidos, a taxa de reciclagem de garrafas PET foi de 30,2% em 2024, segundo a Associação Nacional de Recursos para Embalagens PET, uma leve queda em relação aos 32,5% do ano anterior. Os números mostram progresso real, mas também revelam o volume ainda perdido. É exatamente nesse espaço que pesquisadores como Ian González Santos trabalham. Acompanhe essa história, porque ela está apenas começando.
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