Depois de se alimentar de algas, uma pequena criatura marinha mantém parte dos cloroplastos funcionando dentro do próprio corpo por semanas ou meses
A lesma-marinha preserva cloroplastos retirados de algas e mantém sua atividade fotossintética dentro das próprias células durante meses
A lesma-marinha Elysia chlorotica realiza um processo conhecido como cleptoplastia: ao se alimentar de certas algas, ela não digere todos os cloroplastos ingeridos. Parte dessas estruturas permanece dentro das células do sistema digestivo e continua realizando fotossíntese durante meses, fornecendo compostos que podem contribuir para o metabolismo do animal.
Como a Elysia chlorotica consegue retirar cloroplastos das algas?
A principal fonte desses cloroplastos é a alga filamentosa Vaucheria litorea. A lesma perfura as células da alga e suga seu conteúdo. Em vez de destruir todas as estruturas celulares durante a digestão, ela preserva especificamente os plastídios e os incorpora às células que revestem ramificações do seu sistema digestivo.
Esses cloroplastos ficam distribuídos pelo corpo, especialmente nas expansões laterais conhecidas como parapódios. É justamente a grande quantidade de clorofila acumulada nesses plastídios que deixa o animal adulto com sua característica coloração verde intensa.
O que acontece durante a cleptoplastia dentro do corpo do animal?
Depois de incorporados, os cloroplastos continuam captando luz e mantendo reações fotossintéticas mesmo sem o restante da célula da alga. Esse fenômeno recebeu o nome de cleptoplastia, literalmente uma estratégia baseada em plastídios “roubados”.
Entre as etapas principais estão:
- A lesma perfura e suga células de Vaucheria litorea.
- Parte do conteúdo é digerida normalmente.
- Os cloroplastos permanecem intactos.
- Eles são incorporados às células do sistema digestivo.
- A atividade fotossintética continua por longos períodos.
Este vídeo apresenta especificamente Elysia chlorotica e explica como a lesma utiliza cloroplastos retirados das algas para manter atividade fotossintética dentro do próprio organismo.
Quanto tempo a Elysia chlorotica mantém os cloroplastos funcionando?
Experimentos laboratoriais demonstraram cloroplastos estruturalmente preservados após oito meses sem que os animais voltassem a consumir Vaucheria litorea. Outros trabalhos registraram atividade fotossintética durante aproximadamente nove a dez meses, tornando essa espécie um dos exemplos mais extremos conhecidos de retenção prolongada de plastídios em animais.
Isso é particularmente surpreendente porque cloroplastos normalmente dependem de muitos genes localizados no núcleo da própria alga. Quando são separados dela, deixam de ter acesso direto a grande parte dessa maquinaria, mas ainda assim conseguem permanecer funcionais dentro da lesma por muito mais tempo do que seria esperado.
A fotossíntese realmente fornece energia para a lesma?
Os cloroplastos continuam realizando transporte de elétrons, liberação de oxigênio e fixação de carbono. Estudos também encontraram sinais de produção de compostos lipídicos associados à atividade dos plastídios, indicando que a fotossíntese não é apenas residual, mas pode contribuir metabolicamente para o hospedeiro.
| Característica | O que ocorre |
|---|---|
| Fonte dos plastídios | Vaucheria litorea |
| Local de armazenamento | Células dos divertículos digestivos |
| Tempo funcional | Vários meses, chegando a cerca de 9–10 meses |
| Processo | Cleptoplastia |
A Elysia chlorotica consegue viver apenas de luz?
A expressão “animal movido a energia solar” é útil para chamar atenção, mas simplifica demais o fenômeno. Experimentos mostraram indivíduos sobrevivendo muitos meses sem alimento algal quando receberam luz e dióxido de carbono, porém isso não significa que a lesma tenha se transformado numa planta nem que a fotossíntese substitua permanentemente todas as suas necessidades nutricionais.
O estudo sobre o estabelecimento da cleptoplastia mostrou ainda que animais mantidos no escuro apresentaram dificuldade maior para estabilizar os plastídios e maior mortalidade. Isso reforça que a atividade fotossintética possui importância biológica real durante essa associação.

Por que esse fenômeno continua intrigando os pesquisadores?
O grande mistério é entender como cloroplastos separados do núcleo da alga permanecem funcionando durante tanto tempo. Hipóteses antigas sugeriram transferência de genes da alga para o animal, mas pesquisas genômicas posteriores tornaram essa explicação muito mais controversa e indicaram que a extraordinária resistência dos próprios plastídios também possui papel importante.
A cleptoplastia mostra que a fronteira entre alimentação e simbiose pode ser muito mais complexa do que parece. Elysia chlorotica não fabrica seus próprios cloroplastos e precisa adquiri-los novamente ao longo de cada geração, mas consegue transformar organelas retiradas de outro organismo em componentes funcionais temporários do próprio corpo.
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