Cupinzeiros viram berçários naturais para répteis porque conseguem manter uma temperatura mais estável do que o lado de fora
Pesquisas revelam como estruturas construídas por cupins oferecem condições térmicas e proteção para ovos de lagartos e iguanas
Nas savanas africanas, nas florestas australianas e até em ilhas do Caribe, construções erguidas por cupins podem desempenhar uma função inesperada: abrigar ovos de répteis. Os cupinzeiros funcionam como incubadoras naturais, oferecendo condições de temperatura e umidade diferentes daquelas encontradas no ambiente externo. Essa associação mostra como pequenos insetos conseguem modificar o habitat e criar oportunidades de reprodução para animais muito maiores.
Por que os cupinzeiros oferecem condições favoráveis à incubação?
A temperatura influencia diretamente o desenvolvimento embrionário dos répteis. Oscilações extremas podem comprometer os ovos, enquanto condições térmicas adequadas favorecem a incubação. Os cupinzeiros apresentam paredes, galerias e câmaras que ajudam a amortecer parte das mudanças de temperatura observadas na superfície.
Essas construções também podem conservar umidade, característica importante para ovos que dependem das condições ambientais. Entretanto, nem todos os cupinzeiros apresentam estabilidade térmica idêntica. O tamanho, a arquitetura, a espécie de cupim e as condições climáticas locais influenciam o funcionamento interno dessas estruturas.
Quais répteis utilizam cupinzeiros para depositar seus ovos?
Entre os exemplos mais conhecidos estão lagartos-monitores australianos. Fêmeas de Varanus rosenbergi, Varanus varius e Varanus gouldii podem utilizar estruturas construídas por cupins durante a reprodução. Em determinadas espécies, os insetos reparam as aberturas feitas pelas fêmeas, envolvendo os ovos novamente na estrutura do ninho.
A estratégia também aparece em iguanas das Bahamas, demonstrando que esse comportamento não está restrito aos lagartos-monitores. Entre os benefícios potenciais estão:
- Menor exposição dos ovos às oscilações térmicas;
- Conservação de umidade durante a incubação;
- Proteção física proporcionada pelas paredes;
- Menor exposição a determinados predadores;
- Aproveitamento de estruturas construídas por outros animais.
Este vídeo do Auckland Zoo apresenta filhotes de Varanus varius, espécie que utiliza cupinzeiros para incubar ovos na natureza.
Como os cupins conseguem estabilizar a temperatura dos ninhos?
As paredes dos cupinzeiros possuem propriedades térmicas relacionadas à composição do solo e à organização da estrutura. A massa do material retarda parte das mudanças de temperatura, enquanto galerias e aberturas influenciam a circulação de ar e as trocas de gases.
Além disso, a atividade metabólica dos cupins e, em algumas espécies, dos fungos cultivados pela colônia pode contribuir para o aquecimento interno. A importância desses mecanismos varia entre os ninhos. Assim, não existe um único sistema de ventilação ou controle térmico compartilhado por todas as espécies de cupins.
O que os estudos científicos revelaram sobre a temperatura dos cupinzeiros?
Um estudo publicado no Journal of Thermal Biology analisou 79 cupinzeiros de Macrotermes natalensis no Parque Nacional Kruger, na África do Sul. Os pesquisadores acompanharam as temperaturas internas durante 24 horas e examinaram a influência do tamanho das estruturas e da vegetação ao redor.
Os resultados mostraram que as temperaturas internas acompanhavam parcialmente as mudanças externas, mas apresentavam oscilações menores. Cupinzeiros maiores ofereceram maior estabilidade térmica, enquanto a atividade das colônias também influenciou as condições internas. Esses resultados ajudam a explicar o potencial dos ninhos como refúgios térmicos, embora o estudo não tenha medido diretamente o sucesso reprodutivo de répteis.

Quais espécies demonstram a importância ecológica dessas estruturas?
Na Austrália, Varanus rosenbergi utiliza ninhos de Nasutitermes exitiosus para incubar seus ovos. Pesquisas realizadas na Ilha Kangaroo encontraram oscilações térmicas geralmente pequenas ao longo de um dia, embora mudanças mais amplas também tenham ocorrido durante períodos maiores.
Nas Bahamas, uma população de Cyclura cychlura cychlura, iguana da ilha de Andros, também utiliza cupinzeiros ativos. Pesquisadores observaram que esses locais apresentam temperaturas médias superiores às do ambiente externo e menor variação térmica, além de oferecer proteção contra o encharcamento do solo.
Por que os cupinzeiros são considerados obras de engenharia ambiental?
Os cupins são classificados como engenheiros de ecossistemas porque modificam fisicamente o ambiente. Ao movimentar partículas, construir galerias e concentrar matéria orgânica, eles alteram propriedades do solo e criam microambientes utilizados por outros organismos.
A dependência desses espaços pode ter consequências para a conservação. Quando répteis utilizam cupinzeiros específicos para reprodução, a destruição das colônias pode reduzir a disponibilidade de locais adequados para incubação. Entretanto, a importância dessa relação varia conforme a espécie e o habitat. Preservar os cupinzeiros pode significar proteger também os berçários naturais de outros animais.
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