Crusoé: O ‘true crime’ compensa
Sucesso da série ‘Tremembé’ reascende o debate sobre por que gostamos tanto de relatos sobre crimes
“O crime era um procedimento de amadores. Largaram as joias, celulares, deixaram uma arma no quarto do casal. Se alguém quer roubar, furtar, não deixaria isso no local”, lembraria alguns anos depois Alexandre Paulino Boto, o primeiro policial a chegar à mansão do engenheiro Manfred Albert von Richthofen, e de sua esposa, a psiquiatra Marísia von Richthofen, no bairro do Brooklin, em São Paulo.
Planejado com a inteligência “de amadores”, não tardaria para que os indícios, os mal-entendidos e as contradições apontassem os responsáveis pelo assassinato do casal: na madrugada de 31 de outubro de 2002, Suzane von Richthofen abriu a porta de casa para que o namorado, Daniel, e o cunhado, Cristian – os irmãos Cravinhos – matassem a marretadas os pais da então estudante de direito da PUC-SP.
No dia 9 de novembro, menos de duas semanas depois do crime, a polícia anunciou que Suzane havia confessado a escrita do roteiro para o duplo homicídio.
Cristian Cravinhos foi o primeiro a admitir. Em seguida, o irmão. Em depoimento, Suzane, provavelmente com olho rútilo e lábio trêmulo, garantiu: “Matei por amor”.
O julgamento começou no dia 17 de julho de 2006 e o juiz Alberto Anderson Filho anunciou a sentença na madrugada do dia 22 daquele mês. Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos foram condenados a 39 anos de reclusão. Cristian Cravinhos, a 38.
No Brasil, a lei só permite que um condenado cumpra no máximo 30 anos de prisão. Hoje, os três estão livres.
Em março de 2015, a Justiça de São Paulo determinou que Suzane fosse excluída da herança da família, avaliada em mais de 11 milhões de reais, por ser considerada “indigna” – instituto jurídico que evita que criminosos se beneficiem do resultado do próprio delito.
O patrimônio foi destinando a Andreas, irmão de Suzane. Mas essa história não acabaria aí.
Muitos anos depois – e depois de se apaixonar na cadeia, manipular autoridades, conceder entrevista ao Gugu Liberato, merecer ou desmerecer biografia, ser tema de filmes…
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