Crânios de quase 3 mil anos mostraram a mesma cabeça achatada que preocupa pais hoje, muito antes das campanhas modernas sobre posição de dormir
Análise de 26 crânios da Idade do Ferro na Itália encontrou 11 casos de assimetria compatível com pressão prolongada sobre a cabeça na infância
Muito antes das recomendações modernas sobre como os bebês devem dormir, algumas crianças da Idade do Ferro já desenvolviam alterações no formato da cabeça semelhantes às observadas atualmente. Pesquisadores analisaram 26 crânios humanos encontrados em Matelica, na Itália, e identificaram sinais de plagiocefalia posicional em 11 indivíduos, aproximadamente 42% da amostra. Os restos mortais pertencem a pessoas que viveram entre os séculos IX e VIII a.C., há quase 3 mil anos. A descoberta, publicada em 2026, indica que pressões prolongadas sobre o crânio infantil não são exclusivas das sociedades modernas.
Como a plagiocefalia posicional apareceu em crânios de quase 3 mil anos?
Os pesquisadores examinaram restos humanos de dois cemitérios da Idade do Ferro, conhecidos como Crocifisso e Brecce, na região italiana de Marche. Os esqueletos pertenciam principalmente a adultos, mas preservavam alterações cranianas provavelmente desenvolvidas durante os primeiros meses de vida.
A plagiocefalia posicional ocorre quando forças externas pressionam repetidamente determinadas regiões do crânio ainda maleável. Nos exemplares arqueológicos, os especialistas observaram achatamento assimétrico da parte posterior da cabeça, semelhante ao encontrado em alguns bebês atualmente.
Quais características da plagiocefalia posicional foram identificadas nos ossos?
Dos 26 crânios examinados, 11 apresentaram assimetria posterior. Os pesquisadores utilizaram tomografia computadorizada para investigar esses casos e distinguir alterações desenvolvidas durante a vida de deformações produzidas pelo enterramento.
As imagens também permitiram afastar outras explicações, como modificações cranianas intencionais e fechamento precoce das suturas do crânio. O padrão encontrado foi considerado altamente compatível com deformação causada por pressão prolongada.
Os principais resultados incluem:
- 26 crânios examinados;
- 11 indivíduos com assimetria craniana, equivalentes a 42,3%;
- Sete homens e quatro mulheres entre os casos;
- Oito crânios com achatamento predominante à direita;
- Sete indivíduos com possíveis sinais associados ao torcicolo congênito;
- Alterações compatíveis com pressões sofridas na infância.
O vídeo do pediatra Daniel Portela explica o que é a plagiocefalia posicional e como ela pode alterar o formato da cabeça dos bebês. O conteúdo aborda a condição atual, não os esqueletos encontrados em Matelica.
Por que a cabeça dos bebês pode ficar achatada durante os primeiros meses?
O crânio de um recém-nascido apresenta ossos ainda em desenvolvimento, separados por suturas que permitem o crescimento cerebral. Essa flexibilidade também torna a cabeça sensível a pressões externas repetidas.
Quando um bebê permanece muito tempo com a cabeça voltada para o mesmo lado, pode ocorrer achatamento localizado. Dificuldades para movimentar o pescoço, incluindo o torcicolo muscular congênito, também podem contribuir. Entretanto, os esqueletos de Matelica não revelam exatamente quais posições ou práticas de cuidado produziram as alterações.
O que o estudo italiano revelou sobre os cuidados infantis na Idade do Ferro?
O estudo publicado no International Journal of Paleopathology, disponibilizado em julho de 2026, foi conduzido por Michael Allen Beck De Lotto e colaboradores. A pesquisa combinou observação anatômica, tomografia e medidas das proporções cranianas.
Os autores propõem que a imobilidade prolongada da cabeça durante a infância pode estar relacionada a práticas de cuidado adotadas naquela comunidade. Entretanto, não existem evidências suficientes para determinar se os bebês dormiam em determinadas posições, utilizavam suportes específicos ou permaneciam imobilizados por outras razões. A interpretação depende das alterações preservadas nos ossos.

Quais números tornam os crânios de Matelica especialmente importantes?
A proporção de 42,3% chama atenção porque demonstra que alterações compatíveis com plagiocefalia não eram raras entre os indivíduos examinados. Entretanto, a amostra contém apenas 26 crânios, número insuficiente para representar toda a população da Itália antiga.
Os pesquisadores também identificaram diferenças na localização do achatamento e sinais ósseos possivelmente relacionados à mobilidade do pescoço. Essas observações ajudam a compreender a condição, mas não permitem estabelecer diagnósticos clínicos retrospectivos com a mesma precisão disponível para pacientes vivos.
| Indicador | Resultado da pesquisa |
|---|---|
| Período histórico | Séculos IX e VIII a.C. |
| Crânios analisados | 26 indivíduos |
| Assimetria identificada | 11 casos, ou 42,3% |
| Achatamento à direita | 8 dos 11 casos |
| Possível associação com torcicolo | 7 indivíduos |
Como essa descoberta ajuda a entender a plagiocefalia nos bebês de hoje?
O achado mostra que alterações compatíveis com plagiocefalia posicional existiam muito antes das campanhas de sono seguro iniciadas na década de 1990. Portanto, a condição não surgiu com a recomendação moderna de colocar bebês de barriga para cima.
Essa constatação não muda a orientação médica atual: bebês devem dormir de barriga para cima, medida importante para reduzir o risco de morte súbita infantil. Para diminuir pressões prolongadas sobre a cabeça, profissionais de saúde recomendam períodos supervisionados de barriga para baixo enquanto o bebê está acordado, além de estímulos à movimentação. Os crânios antigos ajudam a compreender a história da condição, mas não justificam alterar práticas de sono seguro.
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