Cinco barras de cobre enterradas sob uma árvore no Malawi viajaram centenas de quilômetros antes de alguém escondê-las e nunca voltar para buscar o metal
Análises químicas rastrearam lingotes encontrados no Malawi até uma mina no Congo e revelaram uma possível rota comercial de 1.200 quilômetros
Em 1967, um agricultor chamado Mabudu Magombe encontrou oito lingotes de cobre em forma de X enterrados junto a uma grande árvore na aldeia de Chombe, no Malawi. Décadas depois, cientistas analisaram cinco peças preservadas e descobriram que o cobre encontrado no Malawi veio de uma região mineradora situada a quase 800 quilômetros de distância, na atual República Democrática do Congo. O estudo, publicado em setembro de 2026, revelou uma antiga rede comercial africana que pode ter utilizado rios para transportar metais pesados por aproximadamente 1.200 quilômetros. Entretanto, o motivo do enterramento continua desconhecido.
Como os lingotes de cobre foram encontrados debaixo de uma árvore?
A descoberta ocorreu no distrito de Dedza, na região central do Malawi. Enquanto escavava perto de uma árvore, Mabudu Magombe encontrou oito peças metálicas em formato de cruz. Em 1970, apresentou os objetos ao arqueólogo Paul Cole-King, que os encaminhou ao órgão responsável pelo patrimônio arqueológico do país.
Os lingotes pertencem ao tipo HXR, encontrado também na Zâmbia e no Zimbábue. Essas peças são geralmente associadas ao período entre os séculos XIV e XVIII. Três dos oito exemplares desapareceram posteriormente, deixando apenas cinco disponíveis para a investigação científica realizada em 2024.
Como os lingotes de cobre revelaram uma viagem de quase 800 quilômetros?
Os pesquisadores examinaram a composição química dos cinco objetos e compararam as proporções dos isótopos de chumbo presentes no metal. Essas proporções funcionam como indicadores da origem geológica dos minérios.
Os resultados apontaram para Kipushi, um importante depósito mineral localizado próximo à cidade de Lubumbashi, na República Democrática do Congo. A distância em linha reta entre a fonte do minério e o local da descoberta é de aproximadamente 790 quilômetros.
Os principais resultados da pesquisa incluem:
- Oito lingotes encontrados originalmente em 1967;
- Cinco peças analisadas em laboratório;
- Identificação de cobre proveniente de Kipushi;
- Distância direta de aproximadamente 790 quilômetros;
- Possível rota comercial de 1.200 quilômetros;
- Evidências de refundição em moldes de areia.

Por que os comerciantes poderiam escolher uma rota mais longa pelos rios?
Transportar grandes quantidades de metal por terra exigia esforço físico e aumentava as dificuldades de atravessar terrenos acidentados. Os rios ofereciam uma alternativa capaz de acomodar cargas pesadas em embarcações.
Os pesquisadores propuseram um percurso pelos rios Kafue e Zambeze, utilizando canoas para boa parte da viagem. O trajeto teria aproximadamente 1.200 quilômetros, incluindo mais de 220 quilômetros finais por terra até o Malawi. Entretanto, essa reconstrução representa uma hipótese logística, não uma rota diretamente comprovada por documentos ou vestígios dos próprios transportadores.
Como os cientistas identificaram a mina de origem dos lingotes de cobre?
O estudo publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, conduzido por Jay Stephens, Virginie Renson, David Killick, Potiphar Kaliba e Smeda Matundu, combinou análises de isótopos de chumbo com medições de elementos químicos.
Os cinco lingotes apresentaram composição compatível com o depósito de Kipushi, incluindo baixos teores de ferro e níquel e concentrações características de outros elementos. A combinação fortaleceu a identificação da fonte mineral. Entretanto, análises antigas dos três lingotes desaparecidos sugerem que nem todas as oito peças necessariamente tiveram a mesma origem geológica.
Por que os lingotes encontrados no Malawi eram diferentes dos demais?
Além da procedência, a pesquisa identificou diferenças na fabricação. Os exemplares de Chombe são mais finos e leves que os lingotes HXR encontrados em outras regiões africanas.
Suas superfícies apresentam irregularidades compatíveis com moldagem em areia, procedimento diferente dos moldes tradicionalmente empregados nesse tipo de objeto. Os cientistas sugerem que o cobre foi derretido novamente e transformado em peças menores durante sua circulação comercial.
| Característica | Resultado da pesquisa |
|---|---|
| Descoberta | Chombe, Malawi, em 1967 |
| Objetos recuperados | 8 lingotes em forma de X |
| Peças analisadas | 5 lingotes preservados |
| Origem do metal | Depósito de Kipushi, no Congo |
| Rota fluvial proposta | Aproximadamente 1.200 quilômetros |
O que os lingotes de cobre revelam sobre o comércio africano antigo?
A descoberta demonstra que o cobre circulava por grandes distâncias na África centro-meridional antes da consolidação das redes comerciais coloniais europeias. Mercadores e comunidades conectavam regiões mineradoras a territórios distantes, transportando matérias-primas e objetos de valor.
A possível refundição também sugere adaptações às necessidades comerciais, embora não seja possível determinar quem executou o trabalho ou por quê. Outra pergunta permanece aberta: quem enterrou os lingotes sob a árvore e por que eles nunca foram recuperados? Os pesquisadores consideram diferentes possibilidades, incluindo armazenamento temporário ou ocultação de bens valiosos. A química esclareceu a origem do metal, mas a história de seus antigos proprietários continua desconhecida.
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