Cientistas perfuram mais de 550 metros de gelo na Antártida e encontram vida colorida enquanto investigam a aceleração de uma geleira
Câmeras sob a plataforma e sensores na base da geleira registraram organismos marinhos e episódios de deslocamento mais rápido.
Uma investigação sobre o movimento da geleira Langhovde, na Antártida Oriental, levou cientistas a perfurar mais de 550 metros de gelo. Além de medir a pressão da água na base, a equipe encontrou anêmonas e esponjas em uma estreita cavidade marinha, reunindo pistas sobre o gelo e a vida escondida sob ele.
O que levou os pesquisadores a perfurar a geleira Langhovde?
Entre dezembro de 2021 e fevereiro de 2022, a equipe liderada por Shin Sugiyama, da Universidade de Hokkaido, trabalhou na geleira próxima à baía de Lützow-Holm para investigar a relação entre a pressão da água na base e as mudanças na velocidade do gelo.
Com jatos de água quente, os pesquisadores abriram passagens estreitas para introduzir câmeras e sensores, complementando as observações feitas na superfície. Dois furos chegaram ao leito a aproximadamente 552 metros, dando acesso a condições que os satélites não conseguem observar diretamente.

A água do degelo diminui o atrito na base
A água do degelo pode descer por fraturas e aumentar a pressão entre a geleira e o terreno, reduzindo o atrito que limita seu deslocamento. Em Langhovde, a equipe registrou acelerações de 10% a 20% durante episódios de derretimento e chuva, acompanhadas por uma pequena elevação da superfície.
As medições revelaram etapas de um mesmo mecanismo:
- Derretimento superficial: água líquida se forma sobre o gelo durante períodos mais quentes.
- Penetração por fraturas: parte dessa água alcança regiões profundas.
- Pressão basal: a água reduz a carga efetivamente apoiada sobre o terreno.
- Deslocamento acelerado: o gelo desliza mais rapidamente quando o atrito diminui.
Em um desses episódios, a pressão da água correspondeu a 97% do peso do gelo acima, sustentando grande parte da carga que normalmente atua sobre o terreno. As medições acompanharam eventos locais e temporários, nos quais a mudança de pressão esteve associada ao movimento mais rápido da geleira.
Onde apareceu a vida colorida debaixo do gelo?
Perto da transição entre o gelo apoiado no solo e a plataforma flutuante, outra perfuração alcançou uma fina camada de água marinha, onde as câmeras encontraram uma anêmona-do-mar e esponjas presas a uma rocha. Ali, os animais viviam em uma cavidade escura, sem receber luz solar direta.
Os principais registros mediram aspectos distintos:
| Observação | Medida registrada |
|---|---|
| Furos até a base da geleira | Cerca de 552 metros |
| Gelo sobre a cavidade dos animais | Cerca de 474 metros |
| Água marinha na cavidade | Aproximadamente 3 metros |
| Aumento episódico da velocidade | 10% a 20% |
Os animais estavam sob cerca de 474 metros de gelo, em uma cavidade com aproximadamente três metros de água marinha. Esse ponto ficava em outra posição da expedição, próximo ao trecho flutuante, enquanto os furos mais profundos alcançaram o leito sob a geleira apoiada no terreno.
O alimento chega pela circulação de água marinha
Fixadas ao substrato, as esponjas e anêmonas podem capturar partículas trazidas pela água, o que ajuda a explicar sua presença em um lugar sem luz solar direta. A comunidade encontrada sugere que a circulação marinha transporta alimento até aquela cavidade estreita sob a plataforma.
Uma rocha em meio ao leito sedimentar oferecia superfície firme para os animais se fixarem, incluindo esponjas associadas ao grupo Homaxinella balfourensis. Já conhecido no oceano Austral, o grupo apareceu ali em uma comunidade instalada num espaço quase inacessível à observação.

Por que uma observação local interessa ao futuro do gelo antártico?
Publicado em 6 de maio de 2026 na Nature Communications e divulgado pela universidade em 12 de junho, o estudo relacionou a entrada de água superficial à pressão basal e à velocidade glacial. A circulação do degelo também é investigada em regiões como a Groenlândia, onde a água se acumula e encontra caminhos pelo gelo.
Em Langhovde, a água marinha também pode levar calor e nutrientes para baixo da plataforma, conectando a dinâmica do oceano ao ambiente glacial. Compreender esses caminhos ajuda a estudar tanto as comunidades que vivem ali quanto a perda de gelo e sua contribuição ao nível do mar.
O vídeo da Universidade de Hokkaido mostra o ecossistema encontrado sob a geleira Langhovde, na Antártida Oriental, com os animais registrados pela câmera na cavidade marinha:
O gelo esconde processos físicos e comunidades vivas
Na mesma expedição, sensores mediram a pressão da água e o movimento da geleira, enquanto as câmeras registraram animais fixados ao fundo marinho. As duas frentes permitiram investigar o deslocamento do gelo e a comunidade sob sua plataforma.
A combinação de medições diretas e imagens ampliou o conhecimento de uma região onde água doce e salgada interagem com o gelo. Os resultados aproximam o estudo das mudanças físicas da geleira da observação da vida que persiste em lugares quase inacessíveis.
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