Cientistas estão testando estradas feitas com redes de pesca recicladas após 84 toneladas terem sido coletadas no mar
Na prática, isso pode reduzir lixo oceânico, aliviar aterros superlotados e transformar resíduos marinhos em novas estradas resistentes.
Oitenta e quatro toneladas de redes de pesca foram retiradas do Oceano Pacífico e, em vez de ir para o aterro ou a incineradora, viraram asfalto. No Havaí, pesquisadores estão testando se o lixo plástico que o mar devolve pode se tornar a estrada por onde os carros passam.
Por que o Havaí virou laboratório para esse experimento
O gerenciamento de resíduos plásticos no Havaí é particularmente difícil e caro. Materiais coletados no oceano precisam ser transportados para fora das ilhas, incinerados ou descartados em aterros sanitários já sobrecarregados. O projeto surge como resposta a esse problema duplo, reduzindo o desperdício e criando um uso local para materiais que não têm destino simples. O ponto de partida foi o fato de que o Havaí já utiliza em larga escala o asfalto modificado por polímeros, o PMA, produzido com estireno-butadieno-estireno (SBS) para aumentar a flexibilidade e a resistência a rachaduras e danos causados pela água em clima tropical.
A pergunta dos pesquisadores foi direta: plásticos reciclados poderiam substituir parte desse polímero sintético sem comprometer o comportamento do pavimento? Para descobrir, foram pavimentados trechos de teste em uma rua residencial em Oahu com três misturas diferentes: asfalto padrão com SBS, asfalto com polietileno reciclado de resíduos domésticos de Honolulu e asfalto com polietileno produzido a partir de redes de pesca recuperadas do oceano.

De onde vieram as redes de pesca usadas no asfalto
Jennifer Lynch, diretora do Centro de Pesquisa de Detritos Marinhos (CMDR) e química ambiental responsável pelo projeto, aponta os equipamentos de pesca abandonados como o maior contribuinte para o problema de detritos marinhos no Havaí. O material usado no experimento foi coletado pelo Projeto Bounty da CMDR, que paga uma recompensa financeira a pescadores comerciais licenciados pela remoção de detritos marinhos. Lynch é precisa sobre o volume: “Até o momento, o Projeto Bounty já retirou 84 toneladas de grandes equipamentos de pesca abandonados do Oceano Pacífico.” O material foi processado por uma empresa americana e transformado em um formato compatível com a produção de asfalto.
O projeto foi iniciado após solicitação do Departamento de Transportes do Havaí (HDOT), que pediu à equipe que avaliasse tanto o desempenho estrutural das estradas quanto a possível liberação de microplásticos pelo pavimento em uso. Essa segunda parte da questão era a mais sensível.
O que os testes revelaram sobre microplásticos nas estradas
Após aproximadamente 11 meses de exposição ao tráfego, a equipe coletou amostras de poeira de cada trecho pavimentado. A análise utilizou cromatografia gasosa de pirólise acoplada à espectrometria de massas (Py-GC-MS), técnica de alta precisão para identificar a origem dos polímeros detectados. Os resultados foram apresentados na reunião de primavera de 2026 da American Chemical Society (ACS):
- O pavimento com polietileno reciclado não liberou mais material plástico detectável do que o asfalto padrão com SBS
- Partículas do tamanho de microplásticos apareceram em todas as amostras, mas apenas uma pequena fração foi identificada como polietileno
- O desgaste dos pneus gerou sinais muito mais fortes do que os associados ao polietileno reciclado
- Testes mecânicos e simulações de águas pluviais apontaram para as mesmas conclusões
Lynch explica o resultado pela forma como o processo funciona: uma vez que o plástico é derretido no asfalto, ele não se separa em fragmentos puros, mas permanece incorporado à mistura de pedra e materiais aglutinantes.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Reuters mostrando o uso das redes de pesca como asfalto.
O que esse experimento significa para além do Havaí
Como Jeremy Axworthy explicou durante a apresentação na ACS, o objetivo é descobrir se os plásticos reciclados podem ser usados de forma responsável no sistema rodoviário havaiano. A lógica é clara: “Ao reutilizarmos os resíduos plásticos já existentes no Havaí, podemos reduzir os impactos ambientais e econômicos do transporte desses resíduos para fora das ilhas, da sua incineração ou do seu descarte nos aterros sanitários já sobrecarregados do Havaí.” O projeto ainda está em fase inicial, mas os dados preliminares sustentam a viabilidade técnica da abordagem.
Lynch resume o que está em jogo com uma clareza que vai além do laboratório: “Algumas pessoas acham que a reciclagem de plástico é uma farsa, que não funciona, que é muito difícil. Mas este trabalho demonstra que a reciclagem pode funcionar quando a sociedade prioriza a sustentabilidade.” Oitenta e quatro toneladas de redes já saíram do oceano e foram para o asfalto. Se os resultados se confirmarem em escala, o modelo pode ser replicado em qualquer litoral do mundo com o mesmo problema e a mesma matéria-prima à disposição. Compartilhe essa descoberta antes que ela chegue à estrada perto de você.
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