Cientistas descobriram ecossistemas completos a 9.500 metros de profundidade no Pacífico que sobrevivem sem depender da luz do Sol, alimentados por gases que escapam do fundo do mar
A zona mais profunda do oceano, chamada zona hadal, foi vista por muito tempo como um ambiente extremo dependente apenas de restos orgânicos
A zona mais profunda do oceano, chamada zona hadal, foi vista por muito tempo como um ambiente extremo dependente apenas de restos orgânicos que caem das camadas superiores.
Sem luz, sem plantas e sem fotossíntese, imaginava-se um cenário de baixa diversidade biológica. Expedições recentes em fossas do Pacífico Norte, porém, revelam ecossistemas complexos e ativos, sustentados por reações químicas no fundo marinho.
O que define os ecossistemas hadais?
Os ecossistemas hadais reúnem organismos que vivem abaixo de cerca de 6 mil metros, em fossas estreitas e profundas, sob pressão extrema e completa escuridão. Por décadas, pesquisadores supunham que esses ambientes fossem quase desertos, habitados apenas por animais dispersos alimentados pela “neve marinha”.
Novas observações mostram trechos com comunidades densas de invertebrados, associadas a vazamentos de metano e sulfeto de hidrogênio. Esses compostos alimentam microrganismos que realizam quimiossíntese, criando ilhas de alta produtividade biológica em meio ao fundo profundo.

Como funcionam os ecossistemas hadais baseados em quimiossíntese?
Nesses sistemas, a fonte primária de energia não é a luz, mas moléculas químicas liberadas por fraturas e falhas no subsolo. Bactérias e arqueias oxidam metano e sulfeto de hidrogênio, convertendo energia química em biomassa própria, essencial para toda a comunidade local.
Muitos animais, como vermes tubícolas e bivalves, mantêm relações simbióticas com esses micróbios em tecidos internos ou brânquias.
O hospedeiro oferece abrigo e acesso a fluidos ricos em compostos reduzidos, enquanto os microrganismos fornecem nutrientes, permitindo a sobrevivência em completa escuridão.
Quais são os principais componentes desses ecossistemas?
Os estudos em fossas do Pacífico Norte indicam que esses ambientes possuem uma organização trófica relativamente estável. A seguir, estão os elementos centrais que estruturam esses ecossistemas e explicam sua produtividade inesperada em grandes profundidades.
Microrganismos quimiossintetizantes: convertem energia química em matéria orgânica.
Animais simbióticos: vermes, moluscos e outros invertebrados que abrigam micróbios.
Vazamentos de metano e sulfeto: fontes contínuas de compostos reduzidos.
Neve marinha concentrada: reforça o aporte de carbono aos sedimentos.
De onde vem a energia nos ecossistemas hadais?
A neve marinha ainda é importante, mas não é a única base energética. Partículas orgânicas que se acumulam nos sedimentos das fossas são degradadas por microrganismos subterrâneos, que produzem metano e outros compostos reduzidos.
Esses gases escapam por fissuras no fundo, formando pontos de vazamento que alimentam comunidades quimiossintéticas na interface sedimento–água. Assim, a fossa age como um “reator natural” de alta pressão, reciclando carbono produzido originalmente nas zonas superficiais.

Quais perguntas permanecem em aberto sobre os ecossistemas hadais?
Pesquisadores ainda não sabem quão comuns são esses sistemas em fossas de outros oceanos, devido ao baixo número de expedições em profundidades superiores a 6 mil metros. A distribuição global desses habitats pode estar subestimada.
Também seguem em estudo a verdadeira diversidade de espécies, a origem evolutiva desses organismos e o impacto das fossas no ciclo global do carbono. Entender esses processos é crucial para modelos que descrevem o funcionamento dos oceanos em um clima em mudança.
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