Cientistas criaram um revestimento que mantém superfícies até 6 °C abaixo da temperatura do ar sob o sol e ainda consegue captar água sem usar eletricidade
O material combina resfriamento e captação de água em uma única superfície
Uma superfície exposta ao sol normalmente esquenta acima do ar ao redor. Pesquisadores da University of Sydney conseguiram inverter parte dessa lógica com um revestimento poroso que reflete quase toda a radiação solar e libera calor para o céu. Nos testes, a própria superfície ficou até 6 °C abaixo da temperatura ambiente e conseguiu condensar água sem gastar eletricidade.
Como uma superfície consegue ficar mais fria mesmo recebendo sol?
O revestimento combina alta reflexão da luz solar com resfriamento radiativo, processo em que a superfície perde energia térmica na forma de radiação infravermelha. Dessa forma, absorve pouco calor do Sol e consegue liberar parte do calor que possui.
A University of Sydney informa que o material reflete até 97% da luz solar. No artigo científico, a formulação analisada apresentou refletância solar total de aproximadamente 96% e emissividade de 95% na chamada janela atmosférica.

O que aconteceu durante seis meses de testes ao ar livre?
O material continuou funcionando durante um experimento realizado no telhado do Sydney Nanoscience Hub. Temperatura, condições meteorológicas e formação de água foram registradas continuamente durante 6 meses.
O artigo publicado em Advanced Functional Materials apresenta os resultados do revestimento de PVDF-HFP, um polímero preparado com uma estrutura interna cheia de poros microscópicos.
De onde vem a água se o material não possui tubulação?
A água já está presente no ar na forma de vapor. Quando o revestimento esfria abaixo do ponto de orvalho, parte desse vapor se transforma em gotas sobre a superfície.
Uma camada superior lisa e resistente à radiação ultravioleta ajuda as gotas a escorrer. Assim, o mesmo efeito usado para resfriar a superfície cria as condições necessárias para recolher água atmosférica.
- Vapor de água: está naturalmente presente na atmosfera.
- Superfície fria: precisa chegar abaixo do ponto de orvalho para haver condensação.
- Gotas: formam-se diretamente sobre o revestimento.
- Gravidade: permite conduzir a água para um sistema de coleta sem bomba elétrica.
Os 6 °C significam que uma casa inteira ficaria 6 °C mais fria?
Não. O valor de até 6 °C se refere à temperatura da superfície revestida em relação ao ar, e não a uma queda garantida de 6 °C dentro de um prédio.
Uma cobertura mais fria pode reduzir a quantidade de calor que entra na construção, mas o efeito no ambiente interno depende de isolamento, clima, área revestida, ventilação, arquitetura e outras características do imóvel.
Quanto de água uma cobertura poderia produzir?
Nas melhores condições observadas, o sistema coletou até 390 mL por metro quadrado em um dia. Durante o acompanhamento em Sydney, houve condições para coleta de orvalho em aproximadamente 32% do período anual projetado pelos pesquisadores.
A universidade calcula que uma área de 12 m², nas condições mais favoráveis, poderia fornecer alguns litros em um dia. Isso não transforma o revestimento em substituto universal para chuva ou abastecimento convencional.
A tecnologia ainda está avançando para uma formulação à base de água que possa ser aplicada com rolo ou pulverizador. O resultado mais importante, por enquanto, é unir dois efeitos passivos na mesma superfície: perder calor e condensar água.
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