Cientistas clonaram um rato, depois o clone dele, depois o clone dele novamente, durante 20 anos até conhecerem o limite biológico das cópias
Após 58 gerações, os clones pararam de sobreviver e expuseram o custo genético da repetição
Durante 20 anos, pesquisadores da Universidade de Yamanashi clonaram o mesmo camundongo repetidamente, geração após geração, usando sempre as células do clone anterior. O resultado, publicado na Nature Communications, revelou algo que ninguém havia documentado antes: a clonagem seriada de mamíferos tem um limite, e quando ele é alcançado, os animais simplesmente param de sobreviver.
Como funciona clonar o clone de um clone durante duas décadas
O experimento começou com uma única fêmea doadora. A equipe coletou suas células e criou um clone usando transferência nuclear, a mesma técnica básica que gerou a ovelha Dolly. Quando esse clone atingia cerca de três meses de idade, o processo se repetia com suas próprias células. Três a quatro gerações eram produzidas por ano, transformando o que poderia ser um experimento isolado em um dos testes de longo prazo mais extensos já realizados sobre clonagem de mamíferos. Todos os animais mantinham o mesmo sexo e a mesma cor de pelagem agouti, o que dava ao projeto uma estranha sensação de continuidade.
Em 2013, os pesquisadores já haviam relatado que as primeiras 25 gerações pareciam saudáveis, sem sinais genéticos de alerta claros. A questão que pairava sobre o experimento há anos permanecia aberta: a clonagem seriada poderia continuar muito além de um único clone bem-sucedido?

O momento em que as cópias começaram a falhar
A resposta chegou quando a linhagem foi levada muito mais longe. Segundo o artigo publicado na Nature Communications, a taxa de natalidade na clonagem seriada começou a declinar a partir da 27ª geração. A 58ª geração foi a última: todos os ratos clonados nessa rodada morreram no dia seguinte ao nascimento, embora as gerações anteriores apresentassem aparência normal e expectativa de vida regular.
Teruhiko Wakayama, biólogo do desenvolvimento da Universidade de Yamanashi e autor sênior do estudo, disse à Reuters:
“Ninguém jamais realizou clonagem repetida por tanto tempo. Como resultado, esta é a primeira vez que descobrimos que a clonagem repetida eventualmente atinge seus limites.”Teruhiko Wakayama, Universidade de Yamanashi
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O que o sequenciamento do genoma revelou geração por geração
O dano genético foi gradual, não imediato. O sequenciamento do genoma dos animais identificou os seguintes acúmulos ao longo das 57 gerações analisadas:
- Aproximadamente 3.700 variantes de nucleotídeo único (SNVs) da geração 1 à 57
- 80 inserções e deleções (indels) no mesmo período
- Média de 69,4 SNVs e 1,4 indels por geração
- Alterações estruturais maiores, incluindo variantes prejudiciais
- Em alguns animais, perda de um cromossomo X, indicando instabilidade genômica crescente

A taxa de mutação três vezes maior do que na reprodução natural
O dado mais impactante do estudo foi a comparação entre clones e descendentes nascidos por acasalamento convencional. Wakayama declarou à Reuters que as mutações nos clones ocorriam a uma taxa três vezes maior do que em descendentes nascidos por reprodução sexual. Os pesquisadores descreveram o processo com uma analogia direta: clonar repetidamente uma linhagem é semelhante a copiar uma imagem na copiadora várias vezes seguidas, em que cada cópia perde um pouco da qualidade antes que as perdas se acumulem de forma irreversível.
A fertilidade deu os primeiros sinais antes do colapso final. Fêmeas clonadas da 20ª geração produziam ninhadas de cerca de 10 filhotes quando acasaladas com machos normais. Na 50ª geração, esse número caiu para 2,8, e na 55ª geração, para apenas 2,2. O declínio estava em curso muito antes da morte da última geração.
O que acontece quando os descendentes voltam à reprodução sexual
O estudo trouxe um contraste revelador: embora a clonagem seriada não pudesse continuar além da 58ª geração, descendentes de clones tardios ainda podiam ser produzidos por reprodução sexuada. A geração seguinte se recuperava parcialmente, com ninhadas chegando a 7,0 filhotes. Os netos também apresentavam placentas de tamanho muito mais próximo ao de embriões fertilizados naturalmente do que ao tamanho aumentado típico de clones, sugerindo que a meiose e a fertilização corrigem parte do dano acumulado pela clonagem repetida.
Wakayama resumiu a conclusão do estudo de forma direta:
“Como todas essas mutações continuam se acumulando, os mamíferos não podem perpetuar suas espécies por meio da clonagem.”Teruhiko Wakayama, Nature Communications, 2026
Mais de 1.200 camundongos clonados foram produzidos a partir de um único doador original ao longo de duas décadas, tornando esse um dos experimentos de clonagem mais longos já registrados. O que ele provou não foi apenas que clones podem nascer saudáveis, mas que existe um ponto em que copiar a vida, sem a reorganização genética que a reprodução sexual oferece, simplesmente chega ao fim.
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