Casa de sal: mãe e filha constroem casa com 4 mil e 300 garrafas de vidro em PE
Conheça a Casa de Sal, em Itamaracá, onde vidro descartado virou casa, proteção e símbolo de resistência ambiental e social
A história da Casa de Sal, em Itamaracá–PE, mostra como um problema urbano e ambiental pode virar solução criativa e cheia de significado: em plena pandemia, mãe e filha, ameaçadas de despejo e sem condições de pagar aluguel, decidiram transformar milhares de garrafas descartadas na Praia do Sossego em paredes, proteção e símbolo de resistência.
O que é a Casa de Sal e por que ela chama atenção?
A Casa de Sal é uma moradia construída com 4.298 garrafas de vidro reaproveitadas, coletadas num raio de cerca de 5 km na Praia do Sossego, em Itamaracá, no litoral norte de Pernambuco. Idealizada por Edna Dantas, 51 anos, e sua filha Maria Gabrielly, 23, tornou-se a primeira casa de vidro desse tipo no estado e um cartão de visita da região.
Além de resolver a necessidade urgente de moradia durante a pandemia, a casa combina luz natural, ventilação e conforto térmico com um visual que mistura arte, arquitetura alternativa e preocupação ambiental. O espaço atrai turistas e curiosos, fomentando debates sobre cidade, desigualdade e sustentabilidade.
Como as garrafas descartadas viraram paredes e proteção?
Mãe e filha recolheram garrafas de vidro descartadas em praias, comércios e terrenos baldios, em uma área carente de coleta seletiva. Em vez de apenas juntar o material, pensaram em uma estrutura resistente e financeiramente acessível, usando as garrafas como tijolos combinados com outros materiais simples.
A construção, feita com paciência e repetição, resultou em paredes transparentes que garantem privacidade, segurança e melhoram o conforto térmico. Ao limpar a área e retirar resíduos cortantes, elas também reduziram riscos para animais, visitantes e moradores, evidenciando uma forma prática de “ecologia popular”.
Confira o vídeo do canal Alma Preta Jornalismo para detalhes da história:
Como a Casa de Sal dialoga com racismo ambiental e sustentabilidade?
As garrafas usadas na obra vieram de áreas sem saneamento, coleta seletiva ou infraestrutura básica, realidade comum em comunidades negras sujeitas a esgoto a céu aberto, lixo acumulado e água contaminada. Esse cenário exemplifica o racismo ambiental, em que os impactos da degradação recaem mais sobre grupos vulnerabilizados.
Desde 2002, Edna atua com cooperativas de catadores, em sua maioria mulheres negras chefes de família, expostas a sol, chuva e invisibilidade social. A Casa de Sal valoriza simbolicamente esse trabalho, ao mostrar o potencial do que é descartado e conectar raça, crise sanitária, moradia e meio ambiente em uma única estrutura.
Quais fatos da trajetória de Edna e Maria ajudam a entender o projeto?
A Casa de Sal é fruto de uma longa luta por moradia digna. Vinda do sertão pernambucano, a família viveu migração, precariedade e experiências de exclusão urbana, o que formou a visão política e social de Edna, graduada em Gestão Pública e militante da habitação desde jovem.
Antes da casa, elas já apostavam no reuso e na economia solidária. Alguns elementos da história da família ajudam a dimensionar a importância da iniciativa:
Raízes ligadas à região de Garanhuns
A história começa em uma área próxima a Garanhuns, marcada pela seca, por dificuldades estruturais e por deslocamentos constantes.
Brechó Cabrochas Brejão
O brechó se tornou a base de sustento da família, unindo moda circular, reaproveitamento e geração de renda ao longo dos anos.
Auxílio emergencial viabilizou terreno
Em meio à pandemia, o recurso recebido ajudou a tornar possível a compra do terreno onde a casa começou a ser construída.
Estética, função social e reaproveitamento
Maria reuniu conhecimento técnico e sensibilidade criativa para transformar moda em ferramenta de expressão, utilidade e reutilização.
O que a experiência da Casa de Sal revela sobre fé, família e futuro?
Para Edna e Maria, a Casa de Sal resume a ideia de acreditar: na família, na união e na capacidade de criar alternativas em meio à escassez. O amor entre mãe e filha foi combustível para enfrentar burocracia, falta de recursos e preconceitos em torno da periferia e de formas não convencionais de construir.
Ao mesmo tempo, elas reforçam que a criatividade não substitui a responsabilidade do Estado em garantir moradia e justiça social. A trajetória inspira outras famílias negras a sonhar e planejar o próprio caminho, mostrando que a transformação urbana e ambiental pode começar dentro de casa, com diálogo entre gerações e organização coletiva.
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