Carne feita por impressora 3D está avançando no Brasil e abre caminho para proteínas sem abate animal
A tecnologia começa a transformar um alimento conhecido
Uma máquina deposita camadas de material vivo até formar um alimento com desenho definido no computador. A carne impressa em 3D já aparece em pesquisas com participação brasileira, ao lado de estudos da Embrapa com células de frango. O avanço mostra que é possível organizar proteína animal fora do corpo, mas o resultado ainda é um protótipo científico, não um produto de supermercado.
O que os pesquisadores conseguiram imprimir?
Uma equipe internacional com participação de uma pesquisadora formada pela Unesp imprimiu alimentos híbridos feitos com células musculares e microalgas. O principal teste produziu fios parecidos com macarrão, além de formatos de coxa de frango e donut.
O estudo publicado na Nature Communications em 2025 usou duas biotintas, géis que carregam células vivas. Os produtos tinham cerca de 30% a 40% de células vegetais e 60% a 70% de células musculares.

Como a impressora 3D transforma células em alimento?
A bioimpressora trabalha por extrusão: empurra as biotintas por um bico e deposita o material em camadas. O formato vem de um modelo digital, mas as células precisam continuar vivas durante e depois da impressão.
A explicação publicada pela Unesp mostra as etapas do experimento:
- Cultivo animal: células de frango crescem e se multiplicam em ambiente controlado.
- Cultivo vegetal: microalgas fornecem outra parte da biotinta usada na máquina.
- Mistura dos géis: células, nutrientes e materiais gelificantes formam duas bases imprimíveis.
- Impressão em camadas: um cabeçote adaptado deposita as duas biotintas ao mesmo tempo.
- Maturação: o alimento volta à incubadora para as células formarem tecido muscular.
Por que a técnica pode reduzir o abate de animais?
A técnica busca multiplicar uma pequena quantidade de células para gerar muitas porções, sem criar e abater um animal para cada produção. No experimento, cerca de 5 milhões de células foram usadas para preparar 1 mililitro da biotinta animal.
Isso não significa que o processo testado já esteja livre de todo insumo animal. Meios de cultivo usados em pesquisas podem conter soro de origem animal, e a troca desses componentes ainda é um dos desafios para cumprir a promessa de produção sem abate.
No Brasil, a Embrapa também desenvolveu um protótipo de frango cultivado com células organizadas sobre nanocelulose bacteriana comestível. Esse estudo não imprimiu um bife completo, mas avançou na formação da estrutura do alimento.

O que já funciona e o que ainda impede a venda?
Os experimentos confirmam que células animais e vegetais podem sobreviver, crescer e formar estruturas depois da bioimpressão. Porém, isso ainda não prova que o produto possa ser fabricado barato, em grande volume e com segurança comercial.
A RDC nº 839 de 2023 da Anvisa exige avaliação de segurança e autorização de uso para novos alimentos antes da comercialização:
Quando a carne impressa em 3D pode chegar ao mercado?
Não existe uma data oficial para a venda desses produtos no Brasil. Antes disso, a tecnologia precisa reduzir custos, trocar insumos de origem animal, aumentar a produção e demonstrar segurança, composição e estabilidade.
A impressão 3D resolve parte do formato e da textura, mas não elimina os desafios do cultivo celular. O avanço brasileiro está no laboratório e ainda percorre o caminho entre prova científica e alimento aprovado.
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