Cães já acompanhavam humanos muito antes da agricultura europeia: 216 restos antigos revelam como migrações mudaram linhagens caninas ao longo de milênios
Análise genética de 216 restos antigos revela a presença de cães na Europa há mais de 14 mil anos e mostra como migrações transformaram sua ancestralidade
Os cães pré-históricos já viviam ao lado de grupos humanos na Europa milhares de anos antes da chegada da agricultura. Um estudo publicado na revista Nature, em 25 de março de 2026, analisou 216 restos antigos de canídeos e revelou como suas linhagens atravessaram a transição entre caçadores-coletores e agricultores. Os resultados mostram que migrações humanas modificaram a ancestralidade dos cães, mas não apagaram completamente as populações europeias mais antigas.
Por que os cães pré-históricos já acompanhavam caçadores-coletores?
Os cães foram os primeiros animais domesticados pelos seres humanos, muito antes de ovelhas, cabras e bovinos passarem a integrar comunidades agrícolas. Entretanto, identificar os primeiros cães não é simples, porque seus esqueletos podiam ser extremamente semelhantes aos dos lobos.
A nova pesquisa confirmou geneticamente a presença de um cão com aproximadamente 14.200 anos na caverna de Kesslerloch, na Suíça. O animal viveu durante o Paleolítico Superior, quando grupos humanos europeus sobreviviam principalmente da caça e da coleta. Sua ancestralidade demonstra que a diversificação genética dos cães já estava em andamento muito antes do surgimento da agricultura na região.
Como o DNA de 216 restos antigos revelou a história dos cães?
Os pesquisadores examinaram restos ósseos provenientes de sítios arqueológicos da Suíça, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Países Baixos e outras regiões. Das 216 amostras analisadas, pelo menos 181 pertenciam a contextos paleolíticos e mesolíticos anteriores à agricultura europeia.
Como o DNA antigo costuma estar fragmentado e misturado ao material genético de microrganismos, a equipe desenvolveu um método para recuperar regiões específicas do genoma. A técnica aumentou de 10 a 100 vezes a concentração de DNA próprio dos animais, permitindo classificá-los com maior segurança.
Entre os principais resultados estão:
- Análise de 216 restos arqueológicos de canídeos;
- Inclusão de pelo menos 181 amostras de contextos pré-neolíticos europeus;
- Identificação genética de cães ou lobos em 141 amostras;
- Reconhecimento de um cão de 14.200 anos encontrado na Suíça;
- Detecção de ancestralidade do sudoeste asiático em cães neolíticos europeus;
- Evidências de continuidade genética entre cães antigos e populações posteriores.

Por que as migrações humanas também modificaram as linhagens caninas?
Durante o Neolítico, grupos de agricultores originários do sudoeste asiático migraram para a Europa, levando conhecimentos agrícolas, animais domesticados e novas práticas culturais. A movimentação alterou profundamente a composição genética das populações humanas europeias.
Os cães também foram afetados, mas de maneira diferente. A ancestralidade dos cães pré-históricos europeus não foi completamente substituída pela chegada de animais associados aos agricultores. As análises indicam mistura entre linhagens locais e populações vindas do sudoeste asiático, demonstrando uma continuidade genética maior que a observada entre determinados grupos humanos.
Quais evidências científicas confirmam a antiguidade dos cães europeus?
O estudo foi liderado por Anders Bergström, da Universidade de East Anglia, em colaboração com pesquisadores de instituições europeias. Publicado em 25 de março de 2026, o artigo científico Genomic history of early dogs in Europe apresentou uma das maiores investigações genômicas sobre canídeos anteriores à agricultura.
Os pesquisadores constataram que o cão de Kesslerloch já compartilhava ancestralidade com cães posteriores de diversas regiões do mundo. Isso contraria a hipótese de que os cães europeus do Paleolítico pertenciam exclusivamente a uma linhagem originada de um processo independente de domesticação. Entretanto, o local exato e a época inicial da domesticação continuam desconhecidos.
Quais diferenças genéticas apareceram antes e depois da agricultura?
Os cães mesolíticos europeus apresentavam uma ancestralidade compartilhada que permaneceu parcialmente presente após a chegada dos agricultores. Em alguns cães neolíticos, os cientistas identificaram contribuições genéticas do sudoeste asiático, indicando que populações distintas passaram a se misturar.
As proporções variaram entre as regiões investigadas. Três cães neolíticos da Escócia apresentaram estimativas de 21% a 25% de ancestralidade do sudoeste asiático, enquanto exemplares da Croácia e da Sérvia alcançaram aproximadamente 33% a 34%. Essas diferenças mostram que a transformação não ocorreu de maneira uniforme.
| Indicador | Resultado científico |
|---|---|
| Restos analisados | 216 canídeos |
| Contextos pré-neolíticos | Pelo menos 181 amostras |
| Identificações genéticas | 141 cães ou lobos |
| Cão de Kesslerloch | 14.200 anos |
| Ancestralidade asiática | Contribuição variável no Neolítico |
O que a descoberta revela sobre a relação entre humanos e cães?
Os resultados indicam que os cães acompanharam transformações profundas nas sociedades humanas sem perder completamente sua herança genética anterior. Mesmo com a expansão agrícola, linhagens associadas aos antigos caçadores-coletores continuaram contribuindo para as populações caninas europeias.
A pesquisa também demonstra a importância do DNA antigo para distinguir cães de lobos em sítios arqueológicos. Os primeiros cães não eram necessariamente parecidos com as raças modernas, e sua aparência isolada pode dificultar a identificação.
Embora o estudo não determine onde a domesticação começou, ele revela que a convivência entre humanos e cães já possuía uma longa história antes da agricultura europeia. Parte dessa herança provavelmente continua presente nos cães atuais.
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