Buracos de árvore viraram pequenos refúgios climáticos e estudo mostra quanto eles protegem animais de extremos de temperatura
Revisão global mostra que ocos naturais reduzem picos de calor e conservam temperatura durante períodos frios
Em florestas de diferentes continentes, cavidades de árvores funcionam como pequenos amortecedores térmicos para animais que passam parte do dia ou da noite dentro delas. Uma revisão global publicada em 2026 reuniu 36 estudos realizados ao longo de 65 anos e encontrou um padrão consistente: esses espaços ficam mais frescos durante os períodos mais quentes e mais quentes quando o ambiente externo esfria, reduzindo a exposição de aves, morcegos e outros animais a extremos de temperatura.
Quanto as cavidades de árvores reduzem o calor?
A análise reuniu 200 comparações entre temperaturas medidas dentro dos ocos e no ar externo. Considerando 198 observações de máximas diárias, o interior ficou, em média, 2,7 °C mais frio que o ambiente. Em dias quentes, definidos no estudo como aqueles com máxima externa de pelo menos 30 °C, a diferença média aumentou para 4,1 °C.
Algumas cavidades grandes ou profundas apresentaram proteção muito maior. Segundo os pesquisadores da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, diferenças próximas de 15 °C já foram registradas em situações específicas. Isso não significa que todo oco ofereça o mesmo isolamento: tamanho, profundidade, espessura da madeira, orientação e exposição ao Sol influenciam o microclima.
O mesmo abrigo também protege contra o frio?
Sim. Nas 196 comparações usadas para avaliar temperaturas mínimas, os ocos ficaram, em média, 2,8 °C mais quentes que o ar externo. Quando a temperatura ambiente caiu para 10 °C ou menos, a proteção média chegou a 3,1 °C, mostrando que a madeira também retarda a perda de calor durante períodos frios.
Esse efeito pode reduzir o gasto energético de animais que descansam, dormem ou criam filhotes nesses locais. O estudo reuniu principalmente pesquisas com morcegos e aves, mas os autores destacam que outros vertebrados também utilizam ocos de árvores como locais de abrigo.
- Média de 2,7 °C mais frios nas máximas;
- Diferença de 4,1 °C em dias com 30 °C ou mais;
- Média de 2,8 °C mais quentes nas mínimas;
- Proteção de 3,1 °C em dias frios;
- Estudos realizados em cinco continentes.
Veja um exemplo de projeto dedicado aos animais que utilizam ocos:
Por que as cavidades de árvores funcionam como refúgios climáticos?
A madeira espessa possui grande inércia térmica. Em vez de acompanhar imediatamente as mudanças do ar externo, o interior do tronco aquece e esfria mais lentamente. Esse atraso reduz os picos durante a tarde e conserva parte do calor quando a temperatura cai durante a noite.
A geometria também importa. Ocos profundos, paredes mais grossas e entradas menos expostas à radiação solar tendem a produzir condições mais estáveis. Estudos anteriores já haviam mostrado que características estruturais alteram o microclima, embora seja difícil prever a temperatura de um abrigo apenas observando sua aparência externa.
Como os pesquisadores chegaram a esse resultado global?
Katrina A. Cotten, Reed D. Crawford e Joy M. O’Keefe revisaram trabalhos publicados durante 65 anos e reuniram dados de cinco continentes. O estudo publicado na revista Forest Ecology and Management comparou diretamente máximas e mínimas de temperatura dentro dos ocos com as condições registradas no ambiente externo.
Os autores reconhecem uma limitação importante: grande parte dos trabalhos disponíveis foi realizada no Hemisfério Norte e em algumas regiões da Austrália, enquanto áreas tropicais altamente biodiversas permanecem pouco representadas. Portanto, o padrão global é consistente, mas ainda existem lacunas geográficas que precisam ser preenchidas por novos estudos.

Caixas artificiais oferecem a mesma proteção?
Nem sempre. Pesquisas que compararam caixas-ninho com ocos naturais mostram que estruturas artificiais podem aquecer mais rapidamente durante o dia e perder calor com maior facilidade à noite. Em um estudo com marsupiais, por exemplo, caixas atingiram máximas médias até 8 °C superiores às de cavidades naturais durante o verão.
Isso não torna caixas artificiais inúteis, mas indica que elas não substituem automaticamente árvores maduras. Material, espessura das paredes, sombra e posicionamento precisam ser considerados quando essas estruturas são utilizadas em programas de conservação.
| Situação | Diferença média | Efeito |
|---|---|---|
| Máxima diária | 2,7 °C mais frio | Reduz o pico de calor |
| Dias ≥ 30 °C | 4,1 °C mais frio | Maior proteção térmica |
| Mínima diária | 2,8 °C mais quente | Retém calor |
| Dias ≤ 10 °C | 3,1 °C mais quente | Reduz exposição ao frio |
Por que preservar cavidades de árvores pode ajudar a fauna?
Com ondas de calor mais intensas e frequentes, diferenças de poucos graus podem se tornar biologicamente importantes. Morcegos e aves já sofreram eventos de mortalidade associados a calor extremo, e a disponibilidade de abrigos termicamente estáveis pode aumentar as chances de animais atravessarem períodos críticos.
Preservar cavidades de árvores significa, portanto, conservar mais do que locais para reprodução. Árvores grandes, antigas e ocas também funcionam como infraestrutura climática natural, oferecendo microambientes que amortecem variações externas e que podem se tornar cada vez mais relevantes para a sobrevivência da fauna.
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