Bell Hooks: “o amor é um ato de vontade, tanto uma intenção quanto uma ação”. Por que tratar amor como verbo muda tudo
"O amor é um ato de vontade, tanto uma intenção quanto uma ação." Bell Hooks e a defesa de tratar amor como verbo, não sentimento passivo
“O amor é um ato de vontade, tanto uma intenção quanto uma ação.” A definição é da escritora e teórica americana Bell Hooks, no livro Tudo Sobre o Amor.
Quem foi Bell Hooks?
Nascida Gloria Jean Watkins, no Kentucky, em 1952, Bell Hooks adotou o nome da bisavó materna, grafado sempre em letras minúsculas, como pseudônimo para assinar a própria obra, decisão que ela explicava como forma de deslocar o foco do nome próprio para as ideias defendidas.
Construiu carreira acadêmica e literária como uma das vozes mais influentes sobre interseção entre raça, gênero e classe social, autora de mais de trinta livros ao longo de décadas, até morrer em 2021.
Bell hooks gigante.
— emicida (@emicida) December 15, 2021
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Onde ela desenvolve essa definição?
A definição aparece em Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas, publicado originalmente em 2000, livro em que Bell Hooks argumenta que a cultura contemporânea trata amor de forma vaga demais, quase sempre como sentimento espontâneo, sem examinar de fato o que a palavra deveria significar na prática.
Para ela, definir amor com precisão é o primeiro passo necessário para praticá-lo de forma consistente, já que sentimentos vagos raramente sustentam ação continuada ao longo do tempo.
algo que se sente ou não se sente, fora do controle da pessoa.
algo que se pratica, com escolha e responsabilidade envolvidas.
O que muda ao tratar amor como verbo?
Quando amor é entendido apenas como sentimento, a pessoa tende a se ver como passiva diante dele, algo que simplesmente acontece ou desaparece sem aviso. Ao tratá-lo como ação deliberada, Bell Hooks desloca a responsabilidade de volta para quem ama: amar bem passa a ser algo que se escolhe fazer, repetidamente, não apenas algo que se sente.
- Amor como sentimento isenta a pessoa de responsabilidade sobre o próprio comportamento.
- Amor como ação exige coerência entre o que se diz sentir e o que se faz na prática.
- A definição vale tanto para relações românticas quanto familiares e de amizade, segundo a autora.
Por que ela escreveu sobre amor depois de décadas escrevendo sobre raça e gênero?
Antes de Tudo Sobre o Amor, Bell Hooks já era referência internacional em teoria crítica sobre racismo, feminismo e desigualdade estrutural. A guinada para o tema do amor não representou um afastamento desses temas, mas uma extensão deles.

Ela argumentava que o cinismo, mais do que o ódio declarado, era o maior obstáculo ao amor genuíno em qualquer relação, incluindo comunidades marcadas por injustiça histórica, e que aprender a amar de forma consistente era também, para ela, um ato político.
A edição brasileira, Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas, foi publicada pela Editora Elefante.
Essa ideia de relação deliberada aparece em outros autores?
A ideia de que boas relações exigem prática deliberada, não apenas sentimento espontâneo, também está na base do trabalho de Marshall Rosenberg e sua Comunicação Não-Violenta, ainda que partindo de um foco mais voltado a conflito e crítica do que ao amor propriamente dito.
Nos dois casos, o argumento de fundo é semelhante: relações saudáveis não dependem só de boas intenções vagas, dependem de escolhas concretas e repetidas sobre como agir diante da outra pessoa.

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