Azeite aromatizado com orégano encontrado em jarros de um navio grego naufragado há cerca de 2.400 anos mostra que algumas receitas sobreviveram praticamente inalteradas desde a época de Sócrates
As ânforas de cerâmica, vazias mas preservadas, funcionam hoje como um arquivo silencioso do que circulava entre portos gregos
O naufrágio de um navio mercante grego próximo à ilha de Quios, no mar Egeu, tornou-se uma das fontes mais reveladoras sobre o comércio no Mediterrâneo antigo.
As ânforas de cerâmica, vazias mas preservadas, funcionam hoje como um arquivo silencioso do que circulava entre portos gregos há cerca de 2.400 anos, agora reinterpretado com o apoio da biologia molecular.
Como o naufrágio de Quios revela o comércio antigo?
O navio, datado do século IV a.C., afundou a cerca de 70 metros de profundidade, com toda a parte orgânica do carregamento destruída pela água do mar. Restaram apenas as ânforas, cuja cerâmica estável preservou forma, proveniência e contexto arqueológico.
Durante boa parte do século XX, arqueólogos interpretavam o conteúdo apenas pelo formato dos jarros, oficinas de produção e rotas conhecidas. Essa abordagem gerava muitas hipóteses e poucas certezas sobre economia, alimentação e especialização regional.

O que a análise de DNA em ânforas antigas permite descobrir?
A partir de 2007, pesquisadores testaram se fragmentos de DNA de plantas permaneceriam retidos nos poros da cerâmica. Raspados do interior das ânforas de Quios foram analisados com marcadores de DNA de cloroplasto e PCR, adaptados para material muito degradado.
Foram identificados fragmentos de DNA associados à oliveira (Olea europaea), orégano (Origanum vulgare) e lentisco (Pistacia lentiscus). A comparação com genomas modernos indicou azeite aromatizado com ervas e vinho conservado com resina, entre outros possíveis produtos agrícolas.
Que produtos o estudo do DNA revela sobre o Mediterrâneo?
Antes, supunha-se que Quios exportasse quase só vinho. A presença de azeite com orégano e substâncias ligadas a resinas mostra uma carga mais diversificada, coerente com um navio mercante de porte médio e economia regional complexa.
Aplicações da mesma técnica em outros naufrágios revelaram vestígios de uvas, leguminosas, ervas como alecrim, tomilho, sálvia, menta, resinas variadas, plantas da família do gengibre e espécies ligadas a nozes.
Por que azeite com orégano permanece na culinária mediterrânea?
A combinação entre azeite de oliva e orégano, já identificada no naufrágio de Quios, segue comum na culinária mediterrânea. O sabor agrada, mas há também forte componente prático de conservação em clima quente e úmido.
O orégano concentra compostos fenólicos, como carvacrol e timol, com ação antioxidante e antimicrobiana, retardando o ranço do azeite. Saberes empíricos rurais na Grécia indicam que propriedades preservantes de ervas como orégano, tomilho e sálvia são conhecidos há séculos.

Como a análise de DNA transforma a arqueologia submarina?
A análise sistemática de DNA em ânforas mudou a escala de interpretação de naufrágios. Recipientes antes lidos apenas por forma e cronologia agora indicam, em detalhe, quais plantas e produtos circularam entre portos mediterrâneos.
Para aproveitar esse potencial, equipes vêm padronizando procedimentos de coleta e análise, que incluem etapas integradas de laboratório e interpretação:
Raspagem controlada do interior das ânforas, evitando contaminação moderna.
Extração e amplificação de fragmentos curtos de DNA, específicos para material antigo.
Comparação com bancos genéticos atuais e cruzamento com dados arqueológicos e históricos.
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