As mulheres do deserto que trocam o banho com água por fumaça e uma pasta vermelha
Feito com gordura, ocre e resinas aromáticas, o otjize protege a pele e expressa beleza, identidade e pertencimento no norte da Namíbia
No norte árido da Namíbia, a tonalidade avermelhada da pele e dos cabelos revela muito mais do que uma solução contra o calor. O ritual diário mistura cuidado corporal, beleza, pertencimento e conhecimentos transmitidos entre gerações, criando uma das expressões culturais mais marcantes do continente africano.
Onde vive o povo Himba no deserto da Namíbia?
Os OvaHimba vivem principalmente na região de Kunene, no norte da Namíbia, com comunidades também encontradas no sul de Angola. São pastores seminômades que mantêm assentamentos familiares, mas podem deslocar pessoas e rebanhos conforme a disponibilidade de água, chuva e pastagens. A UNESCO descreve seu território como uma das paisagens mais áridas do norte namibiano.
A criação de gado, cabras e ovelhas ocupa uma posição central na alimentação, na economia familiar e nas relações sociais. Essa mobilidade não significa que todos estejam continuamente viajando: muitas famílias possuem moradias permanentes e apenas parte do grupo se desloca em determinadas épocas para cuidar dos animais.
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Por que as mulheres do povo Himba quase não usam água no banho?
A frase “mulheres que nunca tomam banho” simplifica uma realidade mais complexa. Em muitas comunidades, a água disponível é priorizada para beber, cozinhar e atender os rebanhos, enquanto o banho diário por imersão não faz parte da rotina tradicional de várias mulheres. A higiene corporal pode incluir banhos de fumaça aromática e a renovação frequente da camada de otjize. Pesquisas recentes ainda registram a continuidade dos banhos de fumaça no lugar de água e sabão entre mulheres Himba.
- Colocar brasas em um recipiente resistente
- Acrescentar ervas, cascas ou resinas aromáticas
- Direcionar a fumaça para a pele e as roupas
- Remover resíduos antigos do corpo
- Aplicar novamente a pasta avermelhada
O vídeo “Himba Tribe Tradition of Smoke Baths and Red Color Skin – Namibia”, do canal Mindia Midelashvili, acompanha mulheres durante o preparo do banho de fumaça e a aplicação do pigmento corporal. As imagens complementam a pauta ao mostrar que o ritual exige tempo e cuidado e não pode ser reduzido à ideia de falta de higiene.
Como o otjize é preparado e aplicado sobre a pele?
O otjize é produzido principalmente com gordura derivada do leite e ocre vermelho triturado. A cor vem da hematita, mineral rico em óxido de ferro. Dependendo da família e dos ingredientes disponíveis, a mistura também pode receber cinzas e resinas de plantas aromáticas, responsáveis por alterar sua textura e seu perfume.
As mulheres espalham a pasta sobre a pele e a utilizam para envolver as tranças, formando mechas espessas de tom alaranjado ou vermelho-terroso. O estudo publicado pela JAMA Dermatology destaca que essa prática combina estética, simbolismo e adaptação ambiental, sem poder ser explicada apenas como substituta do sabonete ou do protetor solar.
O que a pasta vermelha realmente faz no clima árido?
A camada oleosa reduz o ressecamento provocado pelo vento e pelo ar seco, enquanto o pigmento mineral ajuda a refletir parte da radiação solar. Análises físico-químicas do ocre usado na mistura indicaram capacidade de filtrar radiação ultravioleta e refletir parte da radiação infravermelha, embora isso não transforme o otjize em equivalente exato de um protetor solar moderno.
| Ocre vermelho | Produz a cor e ajuda a formar uma barreira mineral |
| Gordura | Facilita a aplicação e reduz o ressecamento |
| Resina aromática | Perfuma a mistura e compõe o ritual corporal |
| Fumaça | É usada na rotina tradicional de higiene e fragrância |
Também são atribuídos à pasta efeitos contra poeira e insetos, mas sua função mais importante não é puramente médica. Para muitas mulheres, o vermelho representa um ideal de beleza e uma ligação visual com a terra. A aplicação é uma forma de apresentação pessoal comparável, dentro de seu próprio contexto cultural, ao uso cotidiano de cosméticos em outras sociedades.
Como o povo Himba transforma cabelos e adornos em identidade?
Os penteados são construídos com tranças, extensões, fibras, pelos de animais e camadas de otjize. Sua disposição pode comunicar idade, fase da vida, estado civil e posição social. Meninas, mulheres casadas e homens jovens utilizam estilos diferentes, tornando o cabelo uma linguagem visual compreendida pelos integrantes da comunidade.
Colares, pulseiras, peles e ornamentos de metal completam essa comunicação. Uma mulher casada ou que já teve filhos pode usar peças e coberturas de cabeça distintas das adotadas por jovens solteiras. O corpo, portanto, funciona como um registro visível de pertencimento, relações familiares e passagem do tempo.

Por que resumir essa cultura a uma tribo que não toma banho é um erro?
A expressão popular transforma uma prática elaborada em espetáculo e cria a impressão de que todas as pessoas Himba vivem exatamente da mesma maneira. Existem diferenças entre famílias, regiões, idades e níveis de contato com cidades. Algumas pessoas mantêm os costumes diariamente, enquanto outras combinam vestimentas tradicionais, escola, comércio, telefones e serviços contemporâneos.
O vermelho que chama atenção nas fotografias não representa sujeira nem atraso. Ele reúne adaptação ao clima, conhecimento de materiais naturais, estética e identidade coletiva. Entender essa combinação permite enxergar os Himba não como personagens congelados no passado, mas como uma sociedade viva que decide quais tradições preservar e como incorporá-las ao presente.
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