As Ilhas Canárias estão passando por uma crise hídrica onde nem plantas dessalinizadoras são o suficiente
A água do mar é vital nas Ilhas Canárias, mas alto consumo energético e impactos ambientais mostram que soluções precisam mudar
Água sempre foi sinônimo de vida, mas nas Ilhas Canárias ela virou também um grande alerta: em pleno século XXI, essa região ensolarada perto da costa africana depende cada vez mais de água dessalinizada e, mesmo assim, enfrenta uma crise hídrica agravada pelo turismo em massa, pela agricultura intensiva e pelos impactos ambientais e energéticos do próprio processo de dessalinização.
Por que as Ilhas Canárias dependem tanto da dessalinização de água do mar
As Ilhas Canárias formam uma das regiões mais secas da Europa, com índices de chuva muito abaixo da média espanhola e pouca água doce em florestas, poços e reservatórios naturais. Durante séculos, cada gota era disputada para consumo humano e agricultura em solo vulcânico e seco.
Hoje, cerca de 2,2 milhões de habitantes dividem os mesmos recursos com até 17 milhões de turistas por ano, o que pressiona fortemente um recurso já escasso. Nesse contexto, transformar água do mar em água potável por meio da dessalinização se tornou questão de sobrevivência para boa parte do arquipélago.

Como a dessalinização se tornou solução essencial e também fonte de problemas
As Ilhas Canárias foram pioneiras na Europa: nos anos 1960, Lanzarote instalou a primeira planta de dessalinização do continente. O processo dominante é a osmose inversa, em que a água do mar é filtrada e empurrada sob alta pressão por membranas que retêm o sal, gerando água doce e salmoura superconcentrada.
Atualmente existem cerca de 330 usinas públicas e privadas, o maior número por quilômetro quadrado do mundo, produzindo mais de meio milhão de metros cúbicos diários. Mesmo assim, muitos moradores ainda preferem água engarrafada, por desconfiança do sabor e da origem industrial da água tratada.

Quais são os custos energéticos e climáticos da dessalinização nas Ilhas Canárias
Por trás de cada torneira que funciona há um custo energético alto: a dessalinização consome mais de 10% de toda a eletricidade do arquipélago. A maior parte dessa energia vem de usinas térmicas movidas a petróleo e gás importados, o que gera forte dependência de combustíveis fósseis.
Essa escolha implica uma pegada de carbono significativa, com estimativas de até 2 mil toneladas de CO₂ liberadas diariamente apenas pela dessalinização. A planta de Santa Cruz de Tenerife, por exemplo, trata cerca de 30 mil m³ de água por dia e consome em torno de 100 mil kWh diários, ilustrando a escala do problema.
Como turismo, agricultura e meio marinho são afetados pela crise da água
A água dessalinizada sustenta o turismo de massa e a agricultura de banana, ambos altamente dependentes de grandes volumes de água. Hotéis, campos de golfe e parques de lazer cresceram apoiados na sensação de abundância hídrica, enquanto agricultores passaram a pagar mais caro por água atrelada ao preço do petróleo.
Além do custo econômico, o descarte da salmoura concentrada e de produtos químicos de limpeza diretamente no mar afeta o ecossistema. Biólogos relatam áreas do fundo marinho sem vida e avanço de cianobactérias invasoras em zonas de descarga, ameaçando reservas marinhas e prados submarinos que capturam carbono, como a Posidonia oceanica.
Se você quer entender os desafios ambientais que afetam regiões turísticas, este vídeo do DW Documental, com 6,11 milhões de subscritores, é feito para você. Ele mostra a sequía nas Islas Canarias e como a escassez de água persiste mesmo com plantas desalinizadoras, com informações que parecem escolhidas especialmente para ampliar sua visão sobre gestão hídrica e sustentabilidade.
Quais caminhos sustentáveis estão sendo testados para o futuro da água
Diante dos limites da dessalinização, as ilhas começam a testar novas estratégias de gestão hídrica e energética. Algumas apostam em turismo menos intensivo, controle de consumo, irrigação sazonal e adaptação de cultivos à disponibilidade real de água, reduzindo a pressão sobre os aquíferos e o mar.
Pesquisadores e governos locais estão investindo em alternativas e combinações tecnológicas, que incluem desde a reutilização de águas urbanas e de complexos turísticos até o maior uso de energias renováveis, como eólica e solar, para alimentar estações de bombeamento e parte das plantas de dessalinização.
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