As aves que carregam brasas para caçar na Austrália
Milhafres e falcões aproveitam incêndios para capturar animais em fuga, mas a parte mais surpreendente começa quando o fogo encontra uma barreira
Enquanto a maioria dos animais foge das chamas, algumas aves de rapina australianas fazem o caminho contrário. Elas se concentram perto das frentes de incêndio porque o fogo expulsa insetos, lagartos e pequenos mamíferos de seus esconderijos. Porém, relatos indicam que certas aves vão além e transportam gravetos em brasa para áreas ainda não queimadas.
Por que essas aves se aproximam de incêndios?
Nas savanas do norte da Austrália, incêndios naturais e queimadas controladas movimentam grande quantidade de animais escondidos entre folhas, capim e troncos. Assim, aves de rapina sobrevoam a borda das chamas e capturam presas desorientadas antes que elas encontrem outro abrigo.
Esse comportamento de caça ao redor do fogo é bem conhecido e não depende necessariamente do transporte de brasas. Milhafres podem chegar em grandes grupos, enquanto falcões aguardam em pontos estratégicos. Portanto, a concentração de aves perto de uma queimada não prova, sozinha, que elas estejam tentando espalhá-la.
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Como as aves incendiárias carregam o fogo?
Segundo observadores indígenas, bombeiros e moradores do norte australiano, algumas aves recolhem gravetos fumegantes com o bico ou as garras. Depois, elas voam sobre estradas, córregos ou faixas já queimadas e soltam o material em capim seco, criando um novo foco onde mais presas podem ser expulsas.
O comportamento pode ocorrer de maneira individual ou com várias aves repetindo tentativas na mesma área. No entanto, elas não produzem fogo do zero: aproveitam chamas já existentes e transportam pequenos materiais acesos. Assim, são propagadoras ocasionais, e não animais capazes de iniciar uma combustão sem uma fonte anterior.
- Aproximam-se de incêndios ou queimadas controladas
- Procuram gravetos, talos ou capim ainda fumegantes
- Seguram o material com o bico ou com as garras
- Transportam a brasa para além da frente já queimada
- Soltam o material sobre vegetação seca
- Aguardam a fuga de insetos, répteis e pequenos mamíferos
O vídeo “This Is How Birds Use Fire”, publicado pelo canal WATOP, apresenta as três aves associadas ao fenômeno e explica como os incêndios transformam pequenos animais em alvos mais fáceis. A produção reúne imagens de rapinantes próximos às chamas e ilustra o transporte de materiais em brasa. Contudo, ela deve ser entendida como uma explicação visual do comportamento descrito pelos pesquisadores, e não como a principal prova científica do fenômeno.
Quais espécies aparecem nos relatos australianos?
O estudo não trata do carcará brasileiro nem do gavião-carrapateiro. As três espécies citadas são o milhafre-preto (Milvus migrans), o milhafre-assobiador (Haliastur sphenurus) e o falcão-marrom (Falco berigora), aves encontradas nas savanas tropicais do norte da Austrália.
O artigo publicado no Journal of Ethnobiology reuniu conhecimento ecológico indígena, registros históricos e depoimentos de pessoas que trabalham diretamente com queimadas. Além disso, os relatos vieram do Território do Norte, da Austrália Ocidental e de Queensland, mostrando que a história não está restrita a um único ponto do país.
O que comprova o comportamento das aves incendiárias?
A base da pesquisa é formada por relatos independentes e repetidos, incluindo observações próximas feitas por bombeiros e moradores experientes. Em alguns casos, testemunhas disseram ter visto aves falharem ao transportar gravetos e repetirem a tentativa até conseguirem levar o fogo para além de uma barreira.
Porém, ainda existe uma limitação importante: quando o estudo ganhou repercussão, os pesquisadores afirmaram não possuir uma filmagem nítida e conclusiva de toda a sequência. Portanto, o comportamento está documentado por conhecimento indígena e testemunhos convergentes, mas ainda precisa de mais registros controlados e imagens inequívocas.
| Ave associada | Nome científico | Relação com o fogo |
|---|---|---|
| Milhafre-preto | Milvus migrans | Caça e transporte relatado |
| Milhafre-assobiador | Haliastur sphenurus | Segue frentes de queimada |
| Falcão-marrom | Falco berigora | Transporte descrito por testemunhas |
Por que espalhar brasas facilita a caça?
Uma frente de fogo funciona como uma barreira móvel que reduz rapidamente os esconderijos disponíveis. Insetos saltam do capim, lagartos deixam troncos e roedores correm para áreas abertas. Dessa forma, as aves encontram presas concentradas, visíveis e ocupadas demais tentando escapar para perceber a aproximação aérea.
Quando o fogo chega a uma estrada, um curso d’água ou uma faixa sem combustível, essa oportunidade de caça diminui. Assim, transportar uma brasa para o outro lado poderia prolongar a disponibilidade de alimento. Ainda assim, isso não significa que todas as aves presentes façam o mesmo: o estudo sugere que a habilidade pode estar concentrada em determinados indivíduos.

As aves incendiárias realmente provocam novos incêndios?
Os relatos descrevem novos focos iniciados em capim seco depois que gravetos fumegantes foram soltos pelas aves. Além disso, guardas indígenas e profissionais envolvidos em queimadas consideram essa possibilidade ao observar focos que ultrapassam aceiros e outras barreiras planejadas para conter o fogo.
No entanto, seria exagerado responsabilizar essas aves pelos grandes incêndios australianos ou afirmar que elas queimam florestas inteiras de propósito. O que as evidências sustentam é mais específico: alguns milhafres e falcões parecem aproveitar um incêndio existente, transportar pequenas brasas e ampliar localmente a área de caça. A história impressiona justamente porque transforma o fogo em uma ferramenta animal, mas ainda exige observação científica cuidadosa.
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