Após mais de um século, o biscoito mais vendido do Brasil passa por três mudanças de uma só vez nas prateleiras
Mudanças percebidas por consumidores em produtos tradicionais levantam dúvidas sobre receita, quantidade, embalagem e troca de controle.
A história por trás da Piraquê exige uma correção importante: a marca começou em 1950, e não há comprovação de que receita, embalagem e tamanho tenham mudado simultaneamente. O que existe é uma aquisição bilionária, alterações visuais ao longo dos anos e relatos de consumidores sobre sabor, peso e apresentação.
O que realmente aconteceu com a Piraquê?
Em janeiro de 2018, a M. Dias Branco anunciou a compra de 100% das ações da Piraquê. A operação avaliou a empresa em R$ 1,55 bilhão e foi concluída em maio, depois de receber as aprovações necessárias.
O comunicado oficial da M. Dias Branco descreveu a compra como parte da estratégia de crescer no Sul e Sudeste e ampliar o portfólio com produtos de maior valor agregado. A compradora é brasileira, e não um fundo estrangeiro.

A empresa realmente tem mais de um século de história?
Não. A própria trajetória da Piraquê começa em 1950, quando teve início a construção da fábrica em Madureira, no Rio de Janeiro. A unidade de biscoitos foi inaugurada em 1953.
Isso significa que, em 2026, a marca tem cerca de 76 anos, e não 112. O dado de “mais de um século” circulou em chamadas sobre a empresa, mas não corresponde à cronologia divulgada pela própria fabricante.
Receita, embalagem e tamanho mudaram realmente de uma só vez?
Não há documentação pública que confirme uma reformulação simultânea de toda a linha nesses três pontos. Consumidores relatam mudanças de sabor, textura, peso e apresentação, mas percepção individual não basta para demonstrar que todas ocorreram juntas ou tiveram a mesma causa.
As embalagens, inclusive, já passavam por redesign antes da venda de 2018. A marca registra uma modernização do logotipo e um processo de atualização dos pacotes iniciado em 2009, quase uma década antes da aquisição.
Para separar mudança verificável de impressão pessoal, vale observar:
O que a venda de 2018 mudou de fato?
A mudança comprovada foi societária: a Piraquê deixou de ser controlada pelos antigos acionistas e passou a integrar a M. Dias Branco. Na época, a empresa adquirida havia registrado R$ 717 milhões de receita líquida entre outubro de 2016 e setembro de 2017.
Uma aquisição desse porte pode levar a ajustes de produção, distribuição, portfólio e posicionamento comercial. Porém, atribuir cada diferença de sabor ou tamanho diretamente à troca de controle exigiria documentação específica da fabricante para cada produto.
Como saber se o pacote realmente ficou menor?
Quando uma fabricante reduz a quantidade de um produto embalado, a Portaria nº 392/2021 do Ministério da Justiça determina informação clara ao consumidor. O rótulo deve indicar a quantidade anterior, a nova quantidade e a diferença absoluta e percentual.
Esse aviso precisa permanecer na embalagem por pelo menos seis meses após a redução. Dessa forma, mudanças de peso são mais fáceis de comprovar do que alterações percebidas apenas no sabor ou na textura.
A diferença entre os tipos de mudança fica mais clara assim:
Por que consumidores antigos percebem mudanças tão rapidamente?
Produtos comprados durante anos criam uma referência muito específica de sabor, textura, formato e quantidade. Por isso, alterações pequenas podem chamar atenção de quem conhece o biscoito há décadas, mesmo quando a mudança não foi anunciada como uma reformulação geral.
No caso da Piraquê, existem fatos documentados, como a venda de 2018 e antigas mudanças de embalagem, e existem relatos de consumidores. O cuidado é não misturar as duas coisas: não há base pública para afirmar que três grandes mudanças atingiram toda a linha simultaneamente.
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