Apenas 334 aves restam: a corrida desesperada para salvar um dos abutres mais ameaçados da África
Projeto de conservação resgata ovos e filhotes nas montanhas entre a África do Sul e Lesoto e tenta reproduzir em cativeiro uma espécie ameaçada de desaparecer.
O futuro do abutre-barbudo no sul da África, também conhecido como quebra-ossos, depende de uma corrida contra o tempo. Com uma população estimada em apenas 334 indivíduos, dos quais cerca de 209 são adultos reprodutores, a espécie enfrenta o risco crítico de desaparecer da região.
Para impedir esse cenário, a conservacionista Shannon Hoffman lidera o programa Bred 4 the Wild, que pretende reunir 32 aves até o fim de 2026 para fortalecer a reprodução em cativeiro e, futuramente, devolver exemplares à natureza.
Por que o abutre-barbudo corre risco de desaparecer?
A situação da espécie é preocupante porque sua reprodução acontece lentamente. Essas aves geralmente começam a se reproduzir por volta dos oito anos de idade e costumam criar apenas um filhote por temporada, o que dificulta a recuperação da população quando há perdas.
Entre as principais ameaças identificadas estão:
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O problema é agravado pelo envenenamento intencional de carcaças por caçadores furtivos, que tentam impedir que os abutres revelem a localização de animais abatidos ao sobrevoarem determinadas áreas.
Como o projeto tenta salvar os filhotes de abutre-barbudo que seriam perdidos?
O programa Bred 4 the Wild aproveita um comportamento natural da espécie para aumentar suas chances de sobrevivência.
Embora a fêmea geralmente ponha dois ovos, o filhote mais velho costuma monopolizar o alimento, deixando o irmão mais novo vulnerável à fome. Esse fenômeno é conhecido como cainismo.
A equipe procura resgatar esses segundos filhotes e ovos em ninhos localizados nos montes Drakensberg, entre a África do Sul e Lesoto.
Para chegar aos locais, os profissionais percorrem trilhas, utilizam helicópteros e descem paredões com cordas, transportando os ovos em recipientes térmicos.
🦅 Esse é o Abutre-barbudo, uma das aves mais impressionantes do mundo. 🍖 Sua dieta é composta quase inteiramente por ossos! Com um ácido estomacal poderoso, ele engole ossos inteiros e os dissolve rapidamente para alcançar o tutano. ❓Já tinha visto? https://t.co/YH2QiC61T5
— Viagem ao Passado (@viagempassado) October 1, 2025
Por que uma marionete é essencial para a criação em cativeiro?
Criar os filhotes de um abutre-barbudo exige mais do que alimentação e abrigo. Os cuidadores precisam evitar que as aves se acostumem com seres humanos, um processo chamado impronta, que pode prejudicar seu comportamento social quando chegarem à idade adulta.
Para reduzir esse risco, a equipe utiliza uma marionete com aparência de um abutre-barbudo, fabricada na Espanha, durante aproximadamente o primeiro mês de alimentação. Depois, os filhotes são transferidos para recintos que imitam cavidades em paredões rochosos e permitem o contato visual com outras aves.
A alimentação também acompanha o desenvolvimento dos animais, passando de ratos e camundongos para ossos e carcaças fornecidos por açougues e criadores de animais.

O programa já conseguiu formar casais reprodutores?
Iniciado formalmente em 2015, o projeto já alcançou uma etapa importante: cinco casais criados em cativeiro chegaram à idade reprodutiva e foram transferidos para espaços preparados para a nidificação. Entretanto, nenhum deles produziu descendentes até o momento.
O trabalho começou após a chegada de Leseli, uma fêmea confiscada de um curandeiro tradicional que a mantinha em uma gaiola pequena. Incapaz de voltar à natureza, ela ajudou a criar mais de 20 filhotes antes de morrer, em 2023.
Conheça mais dealhes do abutre-barbudo no vídeo abaixo do canal “Fatos dos Seres“.
O que ainda precisa acontecer para evitar a extinção do abutre-barbudo?
A meta de reunir 32 aves até o fim de 2026 representa apenas uma parte do desafio. Para que o programa produza resultados duradouros, será necessário conseguir novos nascimentos, preparar os exemplares para uma possível soltura e reduzir as ameaças que continuam matando indivíduos na natureza.
A experiência de programas de reprodução, como o que ajudou a recuperar o condor-da-Califórnia nos Estados Unidos, oferece uma referência para os conservacionistas.
No sul da África, porém, o sucesso dependerá tanto da reprodução quanto da proteção dos habitats e da redução do envenenamento e das mortes provocadas por linhas elétricas.
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