Aos 81 anos, ela voltou para a sala de aula aos 60 depois de uma vida inteira sem estudo formal, entrou na universidade pública aos 79, hoje cursa o quinto período de Pedagogia à distância e acaba de ganhar um prêmio municipal por isso
Aos 81 anos, Marlene Vicente cursa Pedagogia na UERJ e recebeu uma homenagem municipal em Nova Friburgo
Durante boa parte da vida, a universidade pareceu um lugar reservado a outras pessoas. Décadas depois, quando muitos imaginavam que o tempo de estudar havia passado, ela decidiu recomeçar aos 60 anos e construiu uma trajetória que agora recebe reconhecimento público.
Por que Marlene Vicente deixou os estudos tão cedo?
Nascida e criada em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, Marlene cresceu em uma família com poucos recursos. Embora tenha frequentado a escola primária e o antigo ginásio, as dificuldades financeiras acabaram afastando-a da sala de aula, pois materiais simples, como lápis, borracha e caderno, nem sempre podiam ser comprados.
Além disso, ela cresceu ouvindo que a universidade era destinada a pessoas ricas. O trabalho e a sobrevivência ocupavam o centro da rotina familiar, enquanto o ensino superior parecia distante para uma mulher negra de origem humilde. Assim, o sonho permaneceu guardado durante décadas, enquanto ela formava uma família e assumia outras responsabilidades.
Leia também: O avião que voava a 3.529 km/h e escapava de mísseis apenas acelerando
Como ela conseguiu entrar na universidade aos 79 anos?
A mudança começou quando ela completou 60 anos e decidiu retornar à escola para fazer o ensino médio. Marlene concluiu essa etapa aos 65 anos, mas não encerrou o projeto ali. Depois, passou a considerar seriamente a possibilidade de fazer uma graduação, mesmo sabendo que ainda precisaria enfrentar o vestibular.
O passo decisivo veio com o Pré-Vestibular Cecierj, conhecido anteriormente como Pré-Vestibular Social. Durante dois anos, ela recebeu preparação e incentivo dos professores. Então, em 2024, aos 79 anos, foi aprovada para a Licenciatura em Pedagogia da UERJ, oferecida a distância pelo Consórcio Cederj em Nova Friburgo.
- Retomou os estudos aos 60 anos
- Terminou o ensino médio aos 65
- Frequentou o pré-vestibular durante dois anos
- Foi aprovada no Vestibular Cederj em 2024
- Entrou na universidade pública aos 79
- Chegou ao quinto período de Pedagogia aos 81
O vídeo “Aula Inaugural do Curso de Pedagogia UERJ/CEDERJ”, publicado pelo canal EDU Viva, apresenta uma atividade de recepção voltada aos estudantes da Licenciatura em Pedagogia a distância. O conteúdo ajuda a visualizar o ambiente acadêmico no qual Marlene estuda e mostra como o curso conecta a UERJ aos polos regionais do Cederj.
Quais barreiras Marlene Vicente enfrentou no ensino a distância?
Entrar em uma graduação oferecida pela internet trouxe um desafio que não existia quando ela frequentava a escola décadas antes. Marlene quase não utilizava computador ou tablet e tinha pouca familiaridade com o celular. Portanto, precisou aprender a acessar a plataforma do curso, enviar trabalhos e trocar mensagens por e-mail.
Segundo a Fundação Cecierj, a estudante contou com o acompanhamento da tutora Viviane Tavares e da equipe do polo. No entanto, o apoio não eliminou a necessidade de aprender novas ferramentas do zero, conciliando conteúdos de Pedagogia com uma rotina tecnológica totalmente diferente daquela que conhecia.
O que os números revelam sobre essa trajetória?
A história chama atenção porque cada etapa foi conquistada em um momento diferente da vida. Entre o retorno ao ensino médio e a entrada na universidade, passaram-se 19 anos. Porém, esse intervalo não representou desistência, pois ela continuou procurando caminhos até encontrar o curso preparatório que a levou ao vestibular.
Hoje, Marlene é mãe de duas filhas, avó de sete netos e bisavó de dois. Além disso, tornou-se a estudante mais idosa do Polo Cederj de Nova Friburgo. Sua presença entre colegas mais jovens cria uma troca entre gerações e mostra que a experiência acumulada fora da escola também pode contribuir para a formação universitária.
| Aos 60 | Voltou à sala de aula |
| Aos 65 | Concluiu o ensino médio |
| Aos 79 | Entrou em Pedagogia na UERJ |
| Aos 81 | Chegou ao quinto período e recebeu um prêmio |
Por que o prêmio municipal reconheceu sua história?
Em julho de 2026, Marlene foi uma das dez homenageadas na quarta edição do Prêmio Mulheres Pérolas Negras. A iniciativa é realizada pelo Centro Cultural Afro-Brasileiro Ysun-Okê com participação da Prefeitura de Nova Friburgo e busca reconhecer contribuições de mulheres negras em áreas como educação, cultura, política e empreendedorismo.
A escolha considerou sua coragem para retomar um sonho de infância e o exemplo oferecido a outras gerações. Além disso, o prêmio, incorporado ao calendário cultural municipal, valoriza trajetórias que nem sempre alcançam grande visibilidade. Na cerimônia, Marlene agradeceu à família, aos professores, à tutora e à direção do polo que a acompanha.

O que Marlene Vicente ainda pretende conquistar?
A graduação não é tratada por ela como a última etapa. Marlene já manifestou interesse em estudar inglês e considera fazer uma pós-graduação depois de concluir Pedagogia. Assim, o diploma representa uma conquista importante, mas também funciona como abertura para novos projetos acadêmicos.
Sua trajetória não apaga as oportunidades que lhe foram negadas na juventude, porém transforma o significado do tempo que veio depois. Ao chegar ao quinto período aos 81 anos, Marlene Vicente mostra que o retorno à escola pode exigir adaptação, apoio e persistência, mas não precisa obedecer a uma idade considerada ideal pela sociedade.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)