Antártida ganhou 695 bilhões de toneladas de gelo em apenas 22 meses e cientistas descobriram uma conexão inesperada com oceanos tropicais
Estudo publicado na Nature revela como o aquecimento de oceanos tropicais provocou nevascas excepcionais e um aumento temporário na massa de gelo antártica
Entre julho de 2021 e abril de 2023, a camada de gelo da Antártida ganhou aproximadamente 695 bilhões de toneladas, contrariando temporariamente décadas de perda de massa. Um estudo publicado na revista Nature, em agosto de 2026, identificou uma explicação a milhares de quilômetros: o aquecimento persistente de águas tropicais alterou a circulação atmosférica e intensificou as nevascas no leste do continente. O ganho de gelo na Antártida foi temporário, e os pesquisadores alertam que o fenômeno não representa uma reversão da tendência de longo prazo.
Como a Antártida conseguiu acumular 695 bilhões de toneladas de gelo?
O aumento ocorreu principalmente na Antártida Oriental, especialmente entre a Terra da Rainha Maria e a Terra de Wilkes. Nessa região, a quantidade extraordinária de neve superou as perdas de gelo durante parte do período estudado. Somente esse setor acumulou aproximadamente 470 bilhões de toneladas, representando cerca de 68% do ganho registrado em todo o continente.
Os cientistas identificaram a mudança utilizando dados dos satélites GRACE e GRACE-FO, capazes de detectar pequenas variações no campo gravitacional terrestre. Quando uma região acumula gelo, sua massa aumenta e altera ligeiramente a gravidade local. Essas medições permitiram acompanhar o episódio sem depender exclusivamente de observações realizadas na superfície.
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Por que oceanos quentes provocaram nevascas tão intensas na Antártida?
A explicação começa na chamada piscina quente tropical, uma extensa região oceânica situada entre o Pacífico ocidental e o Índico oriental. Entre 2021 e 2023, suas águas permaneceram excepcionalmente aquecidas, modificando o comportamento da atmosfera. Essa alteração desencadeou ondas atmosféricas que se propagaram em direção às altas latitudes do Hemisfério Sul.
Conhecidas como ondas de Rossby, essas perturbações favoreceram a formação de uma anomalia de alta pressão próxima à costa da Antártida Oriental. A circulação resultante facilitou o transporte de umidade do oceano Índico em direção ao continente. O mecanismo envolveu diferentes etapas:
- Aquecimento persistente das águas tropicais do Índico e do Pacífico
- Formação de perturbações atmosféricas de grande escala
- Propagação de ondas de Rossby em direção ao sul
- Alteração dos sistemas de pressão próximos à Antártida Oriental
- Transporte intensificado de umidade e ocorrência de fortes nevascas
O vídeo oficial da Agência Espacial Europeia (ESA) apresenta a evolução da massa de gelo na Antártida e na Groenlândia, incluindo a desaceleração recente das perdas antárticas. A animação ajuda a visualizar por que oscilações temporárias não eliminam tendências observadas durante décadas.
Por que o aumento de gelo não significa que a Antártida deixou de derreter?
Apesar do crescimento observado durante 22 meses, a tendência continental continua marcada por perdas de massa. Entre 2003 e 2024, as medições indicaram uma redução média de aproximadamente 140,5 bilhões de toneladas por ano. O ganho recente interrompeu temporariamente essa trajetória, mas não compensou todas as perdas acumuladas nas décadas anteriores.
Também existem diferenças importantes entre as regiões antárticas. Enquanto o leste recebeu neve excepcionalmente abundante, setores da Antártida Ocidental continuaram perdendo gelo devido à influência de águas oceânicas relativamente quentes e ao escoamento das geleiras para o mar. O balanço continental resulta da combinação desses processos, que podem ocorrer simultaneamente.
O que a pesquisa publicada na Nature revelou sobre os oceanos tropicais?
O estudo Multiyear tropical warm pool warming drives slowdown in Antarctic mass loss, publicado em 19 de agosto de 2026, combinou observações gravitacionais, reconstruções atmosféricas e simulações climáticas. Os resultados mostraram que o aquecimento tropical persistente desencadeou uma conexão atmosférica capaz de modificar as condições de precipitação no extremo sul do planeta.
Os pesquisadores também investigaram registros históricos e simulações de períodos anteriores. Eventos semelhantes de aquecimento prolongado da piscina quente tropical aparecem aproximadamente uma vez por década. Essa recorrência sugere que o ganho recente pode ser explicado por uma oscilação climática natural, embora suas consequências sejam relevantes para compreender a resposta das geleiras às mudanças atmosféricas.
Quais números mostram a diferença entre o ganho temporário e a perda histórica?
A comparação entre períodos revela por que os pesquisadores evitam interpretar o aumento recente como uma recuperação definitiva. Os dados apresentam tanto a intensidade extraordinária do episódio quanto a persistência da perda de gelo em escalas mais longas.
| Indicador | Resultado | Significado |
|---|---|---|
| Julho de 2021 a abril de 2023 | +695 bilhões de toneladas | Ganho total na Antártida |
| Antártida Oriental | +470,3 bilhões de toneladas | Ganho no setor Rainha Maria–Wilkes |
| Período 2003–2024 | −140,5 bilhões de toneladas/ano | Taxa média de perda continental |
| Oscilação tropical | Cerca de uma vez por década | Recorrência aproximada do padrão oceânico |
O que esse fenômeno pode indicar sobre o futuro do nível dos oceanos?
O episódio demonstra que a massa de gelo antártica responde a processos climáticos que acontecem muito além do continente. Pequenas diferenças na circulação atmosférica podem alterar a distribuição de neve e modificar temporariamente o balanço de gelo, dificultando previsões baseadas apenas nas temperaturas locais.
Entretanto, os autores ressaltam que o mecanismo identificado não garante novos períodos de crescimento. O aquecimento oceânico, a aceleração das geleiras e as mudanças na precipitação continuarão influenciando o nível global do mar. Compreender essas interações é essencial para distinguir oscilações passageiras de transformações duradouras no sistema climático.
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