Ambracia, a cidade grega que ousou se defender do cerco romano com o primeiro uso histórico de gases venenosos
Arta, no noroeste da Grécia, parece hoje muito mais uma joia bizantina do que a herdeira direta de Ambracia, a antiga pólis que um dia foi capital do Reino de Epiro.
Arta, no noroeste da Grécia, parece hoje muito mais uma joia bizantina do que a herdeira direta de Ambracia, a antiga pólis que um dia foi capital do Reino de Epiro.
Igrejas ortodoxas, muralhas e um castelo imponente dominam a paisagem, enquanto os restos clássicos do templo de Apolo, do pequeno teatro e da necrópole sobrevivem como fragmentos quase invisíveis de um passado que o visitante precisa “caçar” entre camadas de destruição, abandono e renascimento urbano.
O que torna a história de Arta e Ambracia tão inquietante?
O foco dessa história é a Ambracia, cidade grega que brilhou entre os séculos VII e II a.C. e depois foi praticamente apagada pelo tempo e por decisões políticas.
Sob Pirro de Epiro, Ambracia virou capital real, com palácios, templos, estátuas e um teatro que projetaram poder e riqueza para toda a região.
Esse centro urbano pulsante vivia da agricultura, pesca, madeira para construção naval e do comércio de calçados de luxo, as famosas ambrakides.
Hoje, porém, quase nada disso é visível a olho nu em Arta, revelando um contraste agressivo entre o brilho do passado e o apagamento material presente.
1/ In the 7th century BC, the strong city-state of Corinth founded the colony of Ambracia in an effort to consolidate its trade presence in the West and to relieve various internal social tensions. A recent genetic study illuminates some important aspects of this colonial effort. pic.twitter.com/tOD04jMRtz
— Hermahai (@hermahai) April 24, 2026
Como Ambracia se envolveu em guerras e alianças arriscadas?
A trajetória de Ambracia é um manual de como a busca por autonomia podia virar armadilha na Grécia antiga.
A pólis participou das Guerras Médicas, enviando navios para Salamina e soldados para Plateia, e mais tarde se alinhou a Esparta na Guerra do Peloponeso, sempre oscilando entre ligas rivais para tentar sobreviver.
Com o avanço da Macedônia de Filipo II, a cidade foi conquistada em 338 a.C. e militarizada, depois entregue a Pirro de Epiro.
O enfraquecimento progressivo abriu brecha para a Liga Etólia e, por fim, para Roma, que cercou e saqueou Ambracia em 189 a.C., num episódio brutal com uso de fumaça tóxica em túneis subterrâneos, descrito por Políbio.
Como o domínio romano acelerou o fim de Ambracia?
Após o choque com Roma, Ambracia foi incorporada à província de Epirus Vetus e iniciou um esvaziamento lento, mas irreversível.
A cidade sobreviveu algum tempo como centro regional secundário, até sofrer um golpe fatal na virada do poder imperial.
Em 31 a.C., Otávio, futuro Augusto, transferiu a população para Nicópolis, fundada após Áccio, esvaziando a antiga pólis quase por completo.
Ambracia virou um espaço abandonado, uma espécie de “casco urbano” à espera de uma nova ocupação que só chegaria séculos depois.
8/ Finally, Ambracia fell to the Romans after a siege and stubborn resistance in 189 BC. The consul Marcus Fulvius Nobilior plundered the city's rich treasures and transported them to Rome, while in 31 BC (after the naval battle of Actium) the Ambracians were forced to move 👉 pic.twitter.com/PQsCAFdfWa
— Hermahai (@hermahai) April 24, 2026
De que forma Arta bizantina ocupou e reescreveu esse território?
Por volta do ano 1000 d.C., um novo assentamento bizantino surgiu sobre o terreno da velha Ambracia, primeiro chamado Narte e depois Arta.
Esse renascimento foi impulsionado também pela crise de Nicópolis, atacada em incursões búlgaras, o que deslocou o eixo urbano da região.
Na Arta medieval, o protagonismo passou do mundo pagão ao cristão: igrejas, mosteiros e fortificações impuseram uma nova paisagem e uma nova memória.
O antigo passado grego foi recoberto por cúpulas, ícones e muralhas, transformando o lugar em um poderoso palimpsesto histórico.
O que o visitante encontra hoje entre ruínas clássicas e glória bizantina?
Ao caminhar por Arta hoje, o visitante encara uma cidade moderna que exibe de forma agressiva o legado bizantino e pós-bizantino, enquanto reduz Ambracia a ruínas discretas.
Essa sobreposição de memórias faz da cidade um laboratório a céu aberto sobre como o poder decide o que lembrar e o que esquecer.
Para entender essa estranha convivência de grandeza apagada e brilho preservado, vale notar as principais marcas visíveis na paisagem atual:
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