Adam Alter: “vício não é o corpo se apaixonando por uma droga, é a mente aprendendo a aliviar a dor psicológica”. O que isso explica sobre telas
Adam Alter explica que vício não é o corpo amando uma droga, é a mente aprendendo a aliviar a dor. Os 6 ingredientes do design viciante
“Não é o corpo se apaixonando por uma droga perigosa, mas a mente aprendendo a associar qualquer substância ou comportamento ao alívio da dor psicológica.” A frase é do psicólogo Adam Alter, no livro Irresistível.
Quem é Adam Alter?
Alter é professor na Stern School of Business, da Universidade de Nova York, com pesquisas voltadas a psicologia do consumo, comportamento e, mais especificamente, ao design de produtos digitais feitos para prender a atenção do usuário pelo maior tempo possível.
Publicou Irresistível: A Ascensão da Tecnologia Viciante e o Mercado que Nos Mantém Reféns em 2017, livro que se tornou referência na discussão sobre uso excessivo de telas e aplicativos.
Episode 296 – Adam Alter: The Anatomy of a Breakthroughhttps://t.co/SGjKDMH2LL@adamleealter pic.twitter.com/PeOj6zVxP4
— Rational Reminder Podcast (@RationalRemind) March 14, 2024
O que é vício comportamental, para ele?
Alter define vício comportamental como algo que a pessoa não consegue parar de fazer, mesmo quando o comportamento causa mais mal do que bem, geralmente porque a atividade passa a ser perseguida em detrimento de necessidades básicas da própria vida.
Diferente do vício químico, que envolve substâncias, o vício comportamental que ele descreve está ligado a atividades, como checar notificações ou jogar um game, que se tornam compulsivas por conta do próprio desenho do produto, não de uma substância ingerida.
- 1Metas atraentes, sempre um pouco fora de alcance.
- 2Feedback positivo irresistível e imprevisível.
- 3Sensação de progresso incremental.
- 4-6tarefas que ficam mais difíceis aos poucos, tensões não resolvidas que pedem fechamento, e fortes pistas sociais.
Quais são os 6 ingredientes do design viciante?
No livro, Alter identifica seis elementos recorrentes em produtos e comportamentos que capturam atenção de forma compulsiva: metas atraentes, feedback positivo imprevisível, progresso incremental percebido, dificuldade crescente, tensão não resolvida e forte componente social.
A presença combinada desses elementos, segundo ele, não é acidental na maioria dos aplicativos populares: é resultado de decisões de design deliberadas, testadas justamente para maximizar o tempo de uso.
Por que ele evita comparar isso a vício químico?
Alter é cauteloso ao usar o termo “vício” para comportamentos ligados a telas, reconhecendo que não é tão perigoso quanto, por exemplo, o vício em heroína, mas argumenta que a experiência de muitas pessoas com seus celulares satisfaz boa parte dos critérios clínicos usados para identificar vícios em substâncias.
I highly recommend 'Irresistible: the rise of addictive technology and the business of keeping us hooked' by Adam Alter #ForTheLoveOfReading pic.twitter.com/mDipUdWxDe
— Eusebius McKaiser (@Eusebius) April 23, 2017
Essa cautela terminológica não enfraquece o argumento central do livro: para ele, o problema não está em uma fraqueza pessoal de quem usa esses produtos, mas no desenho deliberadamente projetado para capturar um recurso específico e limitado, a mesma atenção que Mihaly Csikszentmihalyi descreveu como uma forma de energia decisiva na formação da identidade, não uma simples questão de força de vontade individual.
Mais detalhes sobre a pesquisa de Alter estão disponíveis na página oficial da NYU Stern sobre o livro.
O que dá para fazer com essa informação?
Alter não defende abandonar completamente a tecnologia, mas reconhecer os gatilhos específicos de design que tornam certos produtos mais difíceis de largar do que outros, e agir de forma deliberada diante deles.
- Notificações programadas para interromper qualquer tarefa em curso.
- Rolagem infinita de conteúdo, sem ponto natural de parada.
- Recompensas variáveis e imprevisíveis, como curtidas ou novidades no feed.
- Metas e progressos artificiais que incentivam voltar “só mais uma vez”.

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