Abelhas-rainhas expostas a pesticidas transferiram parte da contaminação para os próprios ovos, uma defesa que pode proteger a mãe e cobrar um preço da colônia
Experimento rastreou pesticida entre operárias, rainha e ovos e revelou um mecanismo capaz de redistribuir a contaminação dentro da colmeia
Dentro de uma colmeia, a rainha costuma ser parcialmente protegida da contaminação porque operárias processam o alimento antes de entregá-lo. Um experimento publicado em 2026 mostrou, porém, que essa proteção tem limites. Quando a exposição persistiu, ocorreu transferência materna do pesticida para os ovos, reduzindo a carga química mantida no corpo da rainha, mas deslocando parte do problema para a geração seguinte.
Como a transferência materna apareceu nas abelhas-rainhas?
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis, do USDA e do Lawrence Livermore National Laboratory montaram pequenas colônias experimentais com uma rainha e 60 operárias. As abelhas receberam alimento contendo metil paration marcado com carbono-14, o que permitiu rastrear quantidades extremamente pequenas do composto.
Com o tempo, o pesticida apareceu nos ovários e depois nos ovos. Os autores interpretaram essa passagem como uma forma de descarregar parte da contaminação acumulada pela rainha. Esse mecanismo já é conhecido em alguns vertebrados, mas ainda não havia sido demonstrado dessa maneira em abelhas sociais.
O que as operárias fazem antes que o pesticida alcance a rainha?
As operárias funcionaram como uma primeira barreira química. Ao processar e redistribuir o alimento, elas reduziram fortemente a concentração do pesticida antes que ele circulasse por outras partes da nanocolônia. Parte do composto também terminou depositada nas estruturas semelhantes aos favos.
Essa capacidade, entretanto, diminuiu sob exposição contínua. A redução da concentração chegou a aproximadamente 95% no início do experimento, mas caiu para cerca de 86% no décimo dia, indicando que a proteção social pode ser progressivamente sobrecarregada.
- Operárias filtraram grande parte do pesticida inicialmente;
- Parte da contaminação foi direcionada para o material do favo;
- A eficiência dessa filtragem caiu com o tempo;
- Rainhas acumularam menos pesticida no corpo que operárias;
- O composto alcançou ovários e ovos.
Este vídeo discute como pesticidas podem afetar abelhas e outros polinizadores.
Por que a transferência materna pode beneficiar a rainha?
No décimo dia, as operárias apresentavam, em média, uma concentração corporal do pesticida cerca de 55 vezes maior que a das rainhas. Os pesquisadores encontraram aproximadamente 1.049 partes por bilhão nas operárias contra cerca de 19 partes por bilhão nas rainhas.
Uma possível explicação é que a reprodução ofereça à rainha uma rota adicional para retirar compostos de seu organismo. Ao incorporar contaminantes aos ovos em formação, ela pode preservar melhor seu próprio funcionamento fisiológico imediato, algo particularmente importante para uma fêmea cuja sobrevivência sustenta a reprodução da colônia.
Isso significa que os ovos necessariamente morrem contaminados?
Não. O estudo demonstrou a passagem do composto para os ovos, mas não determinou que toda exposição resulte em falha embrionária ou morte da prole. Os próprios pesquisadores destacam que ainda é necessário estabelecer quanto pesticida pode ser transferido antes que o desenvolvimento seja prejudicado.
A Universidade da Califórnia em Davis descreveu a possibilidade de um ponto crítico no qual a carga nos ovos se torne suficientemente elevada para comprometer o desenvolvimento. Também permanece incerto se o mesmo padrão ocorre com diferentes pesticidas ou sob condições reais de campo.

Quanto do pesticida circulou entre as diferentes partes da colônia?
O uso da espectrometria de massa com acelerador biológico permitiu seguir o carbono-14 em concentrações extremamente baixas. Assim, os cientistas acompanharam a passagem do metil paration entre alimento, operárias, rainha, ovários, ovos e materiais do favo.
Outro resultado foi que a própria presença da rainha alterou a distribuição química da nanocolônia. Colônias com rainha apresentaram mudanças na exposição das operárias e maior deposição no material ceroso, mostrando que a contaminação não depende apenas do pesticida, mas também da organização social.
| Parte do sistema | Resultado observado |
|---|---|
| Filtragem inicial | Cerca de 95% |
| Filtragem no dia 10 | Cerca de 86% |
| Operárias no dia 10 | Cerca de 1.049 ppb |
| Rainhas no dia 10 | Cerca de 19 ppb |
Por que a transferência materna pode cobrar um preço de toda a colônia?
A rainha de Apis mellifera pode produzir milhares de ovos diariamente, tornando qualquer alteração persistente na qualidade desses ovos potencialmente relevante para a renovação das operárias. Se contaminantes prejudicarem uma fração do desenvolvimento embrionário, os efeitos podem aparecer lentamente, e não como uma mortalidade imediata e facilmente percebida.
A transferência materna revela, portanto, um conflito fisiológico inesperado. O mecanismo pode preservar a rainha em curto prazo enquanto redistribui a exposição dentro da colônia. Os autores consideram essencial testar agora diferentes pesticidas, tempos de exposição e condições de campo antes de estimar seu verdadeiro impacto ecológico.
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