A salamandra mexicana que reconstrói patas, coração e partes do cérebro sem deixar cicatrizes permanentes
O anfíbio permanece aquático durante toda a vida e usa células, sinais químicos e uma resposta imune incomum para recuperar tecidos lesionados
Com brânquias que parecem uma coroa, olhos pequenos e uma expressão quase sorridente, esse anfíbio conserva a aparência de filhote mesmo depois de atingir a fase reprodutiva. Por trás do rosto que conquistou aquários e redes sociais existe um organismo capaz de reparar danos que deixariam marcas irreversíveis na maioria dos vertebrados.
Por que o axolote mantém aparência de filhote durante toda a vida?
O Ambystoma mexicanum é uma salamandra aquática originária do sistema de lagos e canais da Cidade do México. Diferentemente da maioria dos anfíbios, ele normalmente não passa por uma metamorfose completa para viver em terra. O animal amadurece sexualmente sem perder as brânquias externas, a cauda adaptada à natação e outras características juvenis. Esse fenômeno é chamado de neotenia ou pedomorfose.
Isso não significa que ele permaneça biologicamente jovem para sempre. O corpo cresce, os órgãos amadurecem e o animal se reproduz, mas sua anatomia continua adaptada à água. O Museu de História Natural de Londres explica que alterações hormonais podem provocar metamorfose em determinadas condições, embora o processo reduza a sobrevivência e prejudique parte de sua capacidade regenerativa.
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Como o axolote consegue reconstruir uma pata amputada?
Depois de uma lesão, a região é rapidamente coberta por uma camada de células que protege o ferimento sem produzir a cicatriz rígida observada em mamíferos. Logo abaixo, diferentes células entram em um estado regenerativo e formam o blastema, uma pequena massa de tecido que funciona como o ponto de partida para reconstruir ossos, músculos, nervos, vasos sanguíneos e pele.
- Fechamento do ferimento sem uma cicatriz fibrosa permanente
- Formação de uma camada protetora sobre a área lesionada
- Reunião de células regenerativas no blastema
- Multiplicação e organização das células conforme sua posição
- Reconstrução gradual de ossos, músculos, nervos e pele
O vídeo “The Axolotl Salamander Doesn’t Wanna Grow Up”, produzido pelo canal científico Deep Look, mostra as brânquias, a anatomia aquática e a regeneração dessa salamandra em imagens aproximadas. O material também explica por que um animal quase desaparecido em seu ambiente natural se tornou um dos principais modelos de pesquisa em laboratórios.
As células não trabalham de maneira desordenada. Estudos de rastreamento revelaram que muitas preservam uma espécie de memória sobre o tecido e a região de onde vieram. Sinais químicos ainda informam onde ficam a frente, a parte posterior e as extremidades da nova pata, permitindo que a estrutura cresça com dedos, articulações e proporções próximas das originais.
Quais partes do corpo podem realmente voltar a crescer?
A lista mais bem documentada inclui patas dianteiras e traseiras, cauda, pele, mandíbula, brânquias e trechos da medula espinhal. O animal também consegue reparar tecidos internos e restaurar conexões nervosas que permitem recuperar movimentos depois de determinadas lesões experimentais. Essa reconstrução pode acontecer repetidas vezes, embora idade, saúde e condições do ferimento influenciem o resultado.
Coração e cérebro exigem uma explicação mais cuidadosa. Pesquisas mostram regeneração do músculo cardíaco lesionado e recuperação funcional sem uma cicatriz fibrosa permanente em modelos experimentais. No cérebro, regiões como o telencéfalo e o pálio conseguem produzir novos neurônios depois de danos controlados. A afirmação de que ele recria olhos inteiros é ampla demais: partes oculares apresentam capacidade regenerativa em condições e fases específicas do desenvolvimento.
O que acontece dentro do corpo durante a regeneração?
O sistema imunológico participa desde os primeiros momentos. Macrófagos chegam à área lesionada, removem resíduos e ajudam a controlar os fibroblastos e a matriz extracelular. Quando essas células de defesa foram reduzidas em experimentos, a regeneração cardíaca foi bloqueada e surgiu uma matriz mais rígida e semelhante a uma cicatriz permanente.
O animal não deixa de produzir colágeno ou uma matriz temporária. A diferença está no destino desse material: em vez de permanecer endurecido e bloquear o crescimento, ele é reorganizado conforme novas células ocupam a região. No coração, por exemplo, pode surgir uma rede provisória de colágeno, posteriormente substituída por músculo cardíaco regenerado. Por isso, “sem cicatriz” significa ausência de fibrose permanente, não ausência total de qualquer resposta reparadora.
Por que o axolote interessa tanto à medicina regenerativa?
Os seres humanos também fecham ferimentos e substituem células, mas lesões profundas costumam terminar em fibrose. No coração, o tecido cicatricial não bate como o músculo original; na medula, a cicatriz glial dificulta o restabelecimento das conexões nervosas. Ao estudar a salamandra, pesquisadores tentam descobrir quais genes, células imunes e sinais químicos permitem reconstruir tecidos sem produzir essas barreiras permanentes.
Isso não significa que a ciência esteja próxima de fazer uma pessoa regenerar um braço inteiro. O organismo humano possui anatomia, imunidade e metabolismo muito diferentes. O objetivo mais realista é aproveitar princípios específicos para melhorar a cicatrização da pele, reduzir fibrose cardíaca, preservar nervos e estimular tecidos humanos a reparar danos com maior eficiência. A salamandra oferece pistas biológicas, não uma receita pronta para transplantes ou regeneração instantânea.

Como um animal com tantos poderes quase desapareceu na natureza?
O axolote selvagem é endêmico de Xochimilco, região de canais e áreas agrícolas tradicionais na Cidade do México. A urbanização, a poluição da água, a redução do habitat e a introdução de carpas e tilápias provocaram uma queda severa da população. A espécie permanece classificada como criticamente ameaçada, apesar de ser criada em grande quantidade em laboratórios e aquários de diversos países.
Pesquisadores da Universidade Nacional Autônoma do México trabalham com refúgios restaurados ligados às chinampas, onde a água é filtrada e peixes invasores são mantidos afastados. Estudos divulgados em 2025 também mostraram que indivíduos criados sob cuidados humanos conseguiram sobreviver e se movimentar em áreas restauradas. Salvar a espécie, portanto, depende menos de produzir mais exemplares em cativeiro e mais de devolver condições adequadas aos canais onde ela evoluiu.
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