A megacidade fantasma que custou mais de R$ 50 bilhões de reais e acabou totalmente abandonada antes mesmo de ficar pronta
A riqueza do carvão financiou avenidas, museus e milhares de apartamentos, mas a população e os empregos não chegaram na mesma velocidade
A cidade fantasma de Kangbashi surgiu no meio das planícies da Mongólia Interior com avenidas monumentais, museus futuristas, estádios e milhares de apartamentos novos. Durante anos, porém, seus prédios permaneceram quase vazios, revelando como a riqueza do carvão, a especulação imobiliária e um plano urbano gigantesco criaram uma cidade muito antes de existir população suficiente para ocupá-la.
Por que a cidade fantasma de Kangbashi foi construída no meio do nada?
Kangbashi pertence à cidade de Ordos, uma região chinesa que acumulou enorme riqueza com a exploração de carvão e outros recursos naturais. No início dos anos 2000, as autoridades decidiram criar um novo centro administrativo e urbano, localizado a cerca de 25 quilômetros do distrito mais antigo de Dongsheng.
O plano reuniu prédios públicos, bairros residenciais, escolas, parques, centros culturais e largas avenidas. A nova área deveria aliviar a pressão sobre o núcleo antigo e receber centenas de milhares de moradores. No entanto, os responsáveis construíram quase toda a infraestrutura antes de confirmar se famílias, empresas e empregos chegariam na mesma velocidade.
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Quais foram os 4 erros que deixaram tantos prédios vazios?
O esvaziamento inicial não surgiu por um único motivo misterioso. Na prática, diferentes decisões econômicas e urbanísticas criaram uma cidade moderna, mas pouco atraente para quem precisava escolher onde morar e trabalhar.
- Construção mais rápida que o crescimento populacional
- Apartamentos caros para parte dos moradores locais
- Dependência excessiva da riqueza produzida pelo carvão
- Falta inicial de empregos e serviços próximos das residências
O vídeo “Kangbashi – China’s Ghost City For The Rich”, publicado pela BBC Studios, percorre as avenidas, praças e conjuntos residenciais de Kangbashi quando o distrito ainda apresentava baixa ocupação. A reportagem mostra o contraste entre a arquitetura monumental e o pequeno número de pessoas nas ruas, além de explicar como a riqueza mineral de Ordos financiou uma expansão urbana muito maior que a demanda daquele momento. O conteúdo complementa o artigo porque registra visualmente a fase que consolidou a fama internacional de “cidade fantasma”.
Como a cidade fantasma de Kangbashi custou tanto dinheiro?
Os números associados à construção variam bastante porque algumas estimativas consideram apenas a área central, enquanto outras incluem moradias, infraestrutura, terrenos e expansões posteriores. A cifra superior a R$ 50 bilhões, portanto, representa apenas uma referência conservadora diante das estimativas internacionais que atribuem valores muito maiores ao desenvolvimento de Ordos.
O dinheiro financiou obras que normalmente surgem depois da consolidação de uma cidade. Kangbashi recebeu museu, teatro, biblioteca, centro de convenções, estádio, prédios administrativos e enormes espaços públicos antes de alcançar uma população compatível com essa estrutura. Assim, a região parecia pronta para uma multidão que ainda não existia.
Por que o dinheiro do carvão provocou o problema econômico?
Ordos prosperou quando a demanda chinesa por carvão aumentou e elevou a arrecadação local. Proprietários de terras, mineradoras, investidores e autoridades passaram a direcionar parte dessa riqueza para o setor imobiliário. Como os preços subiam, muitos compradores adquiriram apartamentos como investimento, sem intenção de morar neles.
Quando os preços do carvão caíram e o mercado imobiliário perdeu força, o fluxo de dinheiro diminuiu. Projetos desaceleraram, construtoras enfrentaram dificuldades e imóveis permaneceram inacabados. Além disso, famílias que poderiam mudar para o novo distrito hesitaram diante dos preços elevados e da falta de atividade econômica ao redor.
| Fase | O que aconteceu | Consequência urbana |
|---|---|---|
| Expansão | A riqueza mineral financiou grandes obras | A infraestrutura cresceu antes da população |
| Especulação | Investidores compraram imóveis sem ocupá-los | Prédios vendidos continuaram com poucas luzes |
| Desaceleração | Carvão e imóveis perderam força | Obras pararam e dívidas aumentaram |
| Reocupação | Órgãos, escolas e famílias foram transferidos | O distrito ganhou moradores gradualmente |
O modelo também dependia da venda de terrenos para financiar o governo local. Esse sistema funcionava enquanto incorporadoras compravam áreas e acreditavam que os preços continuariam aumentando. Quando a confiança caiu, a engrenagem perdeu força, deixando uma paisagem de obras interrompidas, apartamentos vazios e espaços públicos desproporcionais à população.
A cidade fantasma de Kangbashi continua totalmente abandonada?
Não. Embora o título reproduza a imagem que tornou Kangbashi famosa, o distrito nunca ficou completamente abandonado e ganhou moradores ao longo dos anos. O censo chinês de 2020 registrou aproximadamente 119 mil habitantes, enquanto levantamentos posteriores apontaram uma população superior a 130 mil pessoas.
Esse crescimento ainda está abaixo das metas mais ambiciosas, que chegaram a projetar centenas de milhares ou até 1 milhão de moradores. Mesmo assim, escolas funcionam, órgãos públicos operam e empresas ocupam partes do distrito. Em outras palavras, Kangbashi deixou de ser o vazio absoluto retratado nas primeiras reportagens, embora continue subocupada em relação à escala construída.

Como o governo tentou levar moradores para os bairros vazios?
As autoridades transferiram repartições públicas, incentivaram a instalação de escolas e ofereceram condições para que moradores de áreas próximas se mudassem. Além disso, investimentos em transporte, serviços, turismo e espaços culturais tornaram a região mais funcional do que durante seus primeiros anos.
A estratégia produziu resultados graduais, mas não resolveu todas as distorções. Uma cidade precisa de empregos, comércio, relações sociais e deslocamentos cotidianos, não apenas de edifícios. Por isso, a ocupação demorou muito mais que a construção física e mostrou que avenidas e apartamentos não criam vida urbana automaticamente.
O que Kangbashi revela sobre as cidades fantasmas da China?
O distrito tornou-se símbolo de um modelo no qual governos locais e incorporadoras constroem bairros inteiros antecipando uma urbanização futura. Quando a população chega, a estratégia pode parecer visionária. No entanto, quando emprego, renda e demanda não acompanham as obras, surgem áreas com pouca atividade e imóveis usados apenas como reserva financeira.
Um estudo sobre as chamadas cidades fantasmas chinesas destaca que o fenômeno está ligado ao desenvolvimento excessivo de novas áreas urbanas e à dificuldade de transformar construções em bairros realmente habitáveis. Kangbashi, portanto, não desapareceu nem fracassou por completo, mas continua como um alerta sobre o custo de construir uma megacidade antes de construir sua economia cotidiana.
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