A mancha branca de 100 mil km² que iluminou o oceano durante 45 noites e apareceu nos sensores de satélites
Bactérias luminosas podem transformar enormes áreas do oceano em uma superfície clara e contínua, mas a origem desses eventos ainda não foi totalmente explicada
Em alto-mar, longe das cidades e das rotas mais movimentadas, alguns navegadores já encontraram uma paisagem difícil de comparar com qualquer outra. A água escura perde o aspecto habitual e passa a emitir uma luminosidade branca, uniforme e extensa, capaz de alcançar o horizonte por horas ou reaparecer durante várias noites.
Como navegadores descreviam um oceano que parecia coberto de neve?
Relatos desse fenômeno aparecem em registros marítimos há séculos. Em vez de pontos azuis piscando nas ondas, os tripulantes descrevem uma superfície clara e contínua, semelhante a um campo de neve ou a uma camada de nuvens vista de cima. A luminosidade pode envolver completamente uma embarcação e continuar visível mesmo quando o casco atravessa a água.
Um caso decisivo ocorreu em janeiro de 1995, quando o navio mercante britânico SS Lima atravessou uma área luminosa no noroeste do oceano Índico. Anos depois, pesquisadores compararam o diário de bordo com imagens de satélites militares e localizaram uma mancha de aproximadamente 15.400 quilômetros quadrados, observada durante três noites consecutivas. Era a primeira confirmação espacial de um relato feito diretamente por marinheiros.
Qual foi o maior dos mares lácteos já registrado do espaço?
O episódio mais impressionante apareceu ao sul da ilha de Java, na Indonésia, em julho de 2019. Sensores noturnos detectaram uma área luminosa com cerca de 100 mil quilômetros quadrados, dimensão próxima à da Islândia. A estrutura permaneceu identificável por pelo menos 45 noites e girava lentamente entre correntes e redemoinhos oceânicos.
- Área aproximada: Mais de 100 mil quilômetros quadrados
- Duração mínima: 45 noites
- Localização: Sul da ilha de Java
- Maior aproximação da costa: Cerca de 25 quilômetros
- Temperatura superficial observada: Aproximadamente 25 °C
O vídeo apresenta o fenômeno dos mares lácteos, recupera relatos de navegadores que encontraram o oceano completamente iluminado e explica como sensores espaciais permitiram localizar manchas de brilho com dimensões continentais. As imagens ajudam a distinguir essa luminosidade branca e constante das ondas azuis bioluminescentes vistas com mais frequência perto das praias:
O brilho não permaneceu visível para os sensores durante o dia, quando a luz solar encobria completamente a emissão. A duração foi determinada pelo reaparecimento da mesma estrutura nas imagens noturnas, acompanhando formas, posições e movimentos compatíveis com as correntes. Portanto, não significa que o oceano pudesse ser visto brilhando sob o Sol, mas que a fonte luminosa continuou ativa noite após noite.
Por que esse brilho não se parece com as ondas azuis das praias?
A bioluminescência costeira mais conhecida costuma ser produzida por organismos microscópicos chamados dinoflagelados. Eles emitem flashes quando a água é agitada por ondas, barcos, peixes ou pessoas. Por isso, a luminosidade aparece em pontos, riscos e faixas azuis que se acendem por instantes e desaparecem rapidamente.
Nos grandes eventos oceânicos, o comportamento é diferente. A água apresenta um brilho branco, azulado ou esverdeado que permanece relativamente estável, mesmo sem agitação. A principal hipótese atribui essa emissão a enormes concentrações de bactérias luminosas, possivelmente associadas a algas, matéria orgânica e partículas suspensas na camada superficial do oceano.
Como os satélites conseguem localizar os mares lácteos?
O avanço ocorreu com a utilização da faixa diurna-noturna do instrumento VIIRS, instalado em satélites meteorológicos operados por NOAA e NASA. Esse sensor consegue registrar fontes milhões de vezes mais fracas do que a luz do dia. No estudo publicado na Scientific Reports, pesquisadores analisaram imagens obtidas entre 2012 e 2021 e identificaram 12 eventos que obedeciam a critérios rigorosos de persistência, movimento e ausência de fontes luminosas convencionais.
| Etapa da busca | O que precisa ser separado |
|---|---|
| Primeiro sinal | Brilho fraco sobre o oceano |
| Comparação | Nuvens, cidades e luz da Lua |
| Confirmação | Persistência por várias noites |
| Movimento | Deslocamento igual ao das correntes |
A tarefa permanece complicada porque o sensor também registra luar refletido, claridade atmosférica, nuvens iluminadas e luzes de embarcações. A Lua pode ser milhares de vezes mais brilhante do que a bioluminescência e impedir a observação durante parte do mês. Para evitar falsos registros, os pesquisadores acompanham a mancha por noites consecutivas e verificam se seu deslocamento corresponde ao comportamento da água.
O que pode fazer bilhões de bactérias acenderem ao mesmo tempo?
Bactérias luminosas não precisam emitir sua energia continuamente quando estão dispersas. Uma hipótese envolve o chamado quorum sensing, sistema de comunicação química que permite à população responder à própria densidade. Quando a concentração alcança aproximadamente 100 milhões de células por mililitro, substâncias liberadas no ambiente podem ativar a produção coletiva de luz em poucas horas.
Para que isso aconteça em uma área gigantesca, o oceano precisaria funcionar como uma espécie de incubadora natural. Massas de água relativamente estáveis, delimitadas por correntes, diferenças de densidade e camadas de temperatura, poderiam reter bactérias, nutrientes e matéria orgânica pelo tempo necessário. No evento de Java, a luminosidade apareceu em águas com temperatura próxima de 25 °C, concentração moderada de clorofila e baixa turbulência entre grandes redemoinhos.

Por que os mares lácteos ainda escapam dos pesquisadores?
Embora os satélites mostrem onde e por quanto tempo algumas manchas se formam, eles não conseguem determinar sozinhos quais organismos estão presentes em cada ponto, qual é a profundidade da camada luminosa ou o que iniciou a multiplicação bacteriana. A ligação com bactérias como a Vibrio harveyi é sustentada por amostras obtidas em um raro encontro científico, mas não existe coleta direta em todos os episódios observados.
O maior desafio é chegar ao local enquanto o brilho ainda está ativo. Os eventos surgem em regiões remotas, frequentemente distantes de portos e navios de pesquisa. Mesmo quando um satélite os detecta, mobilizar embarcações, equipamentos e especialistas pode levar dias. Os mares lácteos já deixaram de ser apenas histórias de marinheiros, mas a origem de suas proporções gigantescas ainda depende de uma amostra coletada no lugar certo, antes que o oceano volte a ficar escuro.
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