A fumaça passou pela floresta e as mariposas nasceram diferentes após os incêndios extremos do Quebec
Lagartas expostas à fumaça de 2023 originaram adultos com taxas maiores de deformação nas asas e sinais de redução da capacidade de voo
Os incêndios de 2023 no leste do Canadá produziram episódios extremos de poluição, com concentrações de partículas finas acima de 400 microgramas por metro cúbico. Agora, pesquisadores mostraram que a fumaça de incêndios esteve associada a alterações no desenvolvimento de duas espécies de mariposas florestais, cujas lagartas foram expostas no ambiente natural e depois acompanhadas até a fase adulta.
Como a fumaça de incêndios afetou as mariposas do Quebec?
O estudo analisou a lagarta-do-botão-do-abeto, Choristoneura fumiferana, e a mariposa conhecida como forest tent caterpillar, Malacosoma disstria. Ambas são herbívoras de florestas boreais e podem apresentar explosões populacionais capazes de desfolhar grandes extensões de árvores.
Nas mariposas provenientes de lagartas expostas aos episódios de fumaça de 2023, os pesquisadores encontraram proporções maiores de asas dobradas, enrugadas ou parcialmente não desenvolvidas. Em C. fumiferana, aproximadamente 30% apresentaram alguma deformidade, contra cerca de 11% a 15% em amostras do ano anterior.
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Por que o estudo começou quase por acaso durante os incêndios?
A equipe já coletava lagartas e acompanhava populações de insetos na região de Abitibi, no Quebec, para outros projetos. Quando os incêndios e a deterioração da qualidade do ar interromperam atividades de campo, os pesquisadores perceberam que tinham amostras obtidas antes e depois dos grandes episódios de fumaça.
As lagartas coletadas no ambiente foram mantidas até completarem a metamorfose, permitindo examinar os adultos posteriormente. Assim, as deformidades foram observadas em laboratório, mas a exposição relevante havia ocorrido no campo durante o desenvolvimento larval.
- Duas espécies de mariposas foram analisadas;
- A exposição ocorreu durante o estágio larval;
- As deformidades incluíram asas dobradas e enrugadas;
- As asas anteriores foram particularmente afetadas;
- A capacidade de voo também apresentou sinais de redução.
Este vídeo da própria Universidade Concordia apresenta diretamente a pesquisa e seus resultados.
A fumaça de incêndios também prejudicou a capacidade de voo?
Em Malacosoma disstria, machos expostos apresentaram mais deformidades e menor atividade de voo do que grupos criados em condições de ar limpo e amostras de campo obtidas posteriormente. Armadilhas de feromônio, que dependem da chegada de mariposas capazes de voar, capturaram proporcionalmente menos indivíduos deformados.
Esse resultado sugere que alterações nas asas podem limitar dispersão, busca por parceiros e outros comportamentos dependentes do voo. Entretanto, a pesquisa não demonstrou que essas deformidades tenham provocado uma queda populacional: no ano seguinte, os pesquisadores não detectaram uma mudança significativa na abundância regional.
O estudo provou como a fumaça de incêndios deformou as asas?
Não. O estudo publicado na Environmental Science and Pollution Research demonstrou uma associação entre exposição durante o desenvolvimento larval e maiores taxas de deformidade, mas o mecanismo fisiológico responsável ainda não foi determinado.
Os autores discutem possibilidades como interferências hormonais durante a metamorfose ou alterações respiratórias provocadas pela baixa qualidade do ar. Essas explicações permanecem hipóteses. O trabalho não isolou uma substância específica da fumaça nem mostrou qual componente seria responsável pela alteração das asas.

Por que as mariposas deformadas eram mais pesadas?
Outro resultado inesperado foi que indivíduos com asas deformadas apresentavam, em média, maior massa corporal nas duas espécies. À primeira vista, isso poderia parecer contraditório, porque maior peso não costuma ser interpretado imediatamente como sinal de dano durante o desenvolvimento.
Os pesquisadores ainda não sabem a causa. Uma possibilidade levantada é que indivíduos menores e mais frágeis tenham morrido antes de chegar à fase adulta, deixando entre os sobreviventes deformados principalmente exemplares maiores. Essa interpretação ainda precisa de testes específicos.
O que a fumaça de incêndios pode mudar nas florestas boreais?
As duas espécies estudadas são importantes porque participam de grandes surtos de herbivoria. Se alterações no voo modificarem dispersão, reprodução ou sobrevivência, a fumaça pode interferir indiretamente nas relações entre insetos e árvores mesmo longe das chamas.
Mas o estudo não permite prever ainda se isso aumentará ou reduzirá futuras infestações. Ele mostra que incêndios podem afetar organismos por uma via menos visível: a poluição atmosférica alcança animais que sobreviveram ao fogo e pode alterar seu desenvolvimento sem que a floresta precise ter queimado diretamente.
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