A expedição que cruzou o oceano para testar Einstein e acabou fazendo história
O eclipse solar de 1919 permitiu observar estrelas muito próximas ao disco do Sol
Em 29 de maio de 1919, durante um eclipse total do Sol, duas expedições coordenadas a partir do Reino Unido testaram a recém-formulada teoria da relatividade geral de Albert Einstein.
O objetivo era medir se a gravidade solar desviava a luz das estrelas conforme previsto, transformando o fenômeno em um marco científico e histórico. O episódio ficou consagrado como o célebre eclipse solar de 1919.
O que o eclipse solar de 1919 pretendia demonstrar?
O eclipse solar de 1919 permitiu observar estrelas muito próximas ao disco do Sol, normalmente ofuscadas pelo seu brilho intenso. Durante a totalidade, a Lua encobriu o Sol e o céu escureceu o suficiente para registrar fotograficamente estrelas e Sol no mesmo campo.
A relatividade geral previa que a luz passando rente ao Sol sofreria desvio de cerca de 1,75 segundos de arco. Um modelo newtoniano, tratando a luz como partículas sob gravidade, previa aproximadamente 0,87 segundos de arco, diferença mensurável com boa instrumentação.

Como a teoria de Einstein se diferenciava das ideias anteriores?
Antes de Einstein, alguns físicos já supunham que a gravidade pudesse afetar a luz, mas sempre como força newtoniana atuando sobre partículas luminosas. Essas propostas eram parciais, pouco testadas e produziam previsões menos precisas para o desvio da luz.
Einstein descreveu a gravidade como curvatura do espaço-tempo gerada por massa e energia, não como força à distância. Essa visão geométrica permitiu calcular com precisão a deflexão da luz perto do Sol e mostrou que o valor relativístico seria o dobro do valor newtoniano.
Como foram organizadas e executadas as expedições de 1919?
O plano, coordenado pelo Astrônomo Real Frank Watson Dyson, enviou duas equipes para reduzir o risco de mau tempo. Arthur Eddington e Edwin Cottingham foram à ilha de Príncipe, na costa ocidental da África, enquanto Andrew Crommelin e Charles Davidson viajaram para Sobral, no norte do Brasil.
O trabalho exigiu registrar o campo estelar durante o eclipse e em outra época sem o Sol, seguindo etapas bem definidas:
Instalação de celóstatos e telescópios astrógrafo-espelho em campo, mitigando distorções térmicas e aberrações de lente.
Exposição de placas de vidro fotográficas durante o bloqueio da Lua, registrando a posição das estrelas sob efeito gravitacional.
Captura da mesma região estelar à noite meses depois, gerando a matriz de coordenadas reais das estrelas sem a massa do Sol.
Medição micrométrica do desvio aparente ($2\delta$), confrontando os dados de Sobral com as previsões de Newton e Einstein.
Quais foram os resultados e por que houve debate?
Em Príncipe, o céu nublado permitiu poucas placas utilizáveis, com grandes incertezas, mas valores compatíveis com a relatividade geral. Em Sobral, um telescópio confirmou o desvio relativístico, enquanto o astrográfico indicou valor menor, ligado a problemas de foco por variação de temperatura.
Dyson e Eddington descartaram os dados considerados tecnicamente falhos, o que mais tarde gerou suspeitas de viés pró-Einstein. Reanálises modernas, com digitalização e estatística refinada, indicam que essas escolhas foram justificáveis e que o eclipse de 1919 forneceu apoio real, embora inicial, à teoria.
O canal Gravitação Universal explicou sobre o eclipse de 1919:
Como o eclipse de 1919 impactou a fama de Einstein?
Os resultados foram anunciados em 6 de novembro de 1919, em sessão conjunta da Royal Society e da Royal Astronomical Society. A imprensa destacou que uma previsão de Einstein fora confirmada e ressaltou a cooperação entre cientistas britânicos e um físico alemão no pós-guerra.
A partir daí, o nome de Einstein tornou-se sinônimo de gênio científico para o grande público. Observações posteriores, inclusive com radiotelescópios e satélites como o Hipparcos e o Gaia, confirmaram o efeito com precisão muito maior, consolidando o legado simbólico do eclipse solar de 1919.