A ex-cortadora de cana que estudou com folhas achadas no lixo e saiu do trabalho doméstico para se tornar juíza
Ela trabalhou na lavoura aos 12 anos, estudou com material descartado por não poder comprar apostilas e abriu caminho do primeiro concurso até a magistratura
Aos 12 anos, Antônia Faleiros já trabalhava em lavouras de cana-de-açúcar no interior de Minas Gerais. Anos depois, sem dinheiro sequer para comprar uma apostila de concurso, ela recolheu folhas descartadas perto de uma copiadora, estudou o material disponível e iniciou uma trajetória que terminaria no cargo de juíza. A história real é ainda mais impressionante do que a versão viral que fala em primeiro lugar em um concurso federal.
Como Antônia Faleiros foi parar em um canavial aos 12 anos?
Antônia nasceu e cresceu na comunidade rural de Barro Vermelho, em Serra Azul de Minas, no Vale do Jequitinhonha. Era a mais velha de seis irmãos e, em 1975, precisou interromper temporariamente os estudos porque a localidade onde vivia oferecia aulas somente até a quarta série. Sem condições financeiras para estudar em outra cidade, começou a trabalhar para contribuir com a renda familiar.
Foi nesse período que chegou às lavouras de cana na região de Curvelo. Segundo seu relato, crianças participavam daquele trabalho rural em condições muito precárias. Depois da safra, ela voltou para sua cidade e chegou a lavar roupas no rio. Quando novas séries escolares começaram a ser abertas na região, retomou os estudos, incentivada principalmente pela mãe, que valorizava a educação apesar de não ter recebido a mesma oportunidade durante a própria infância.
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O que ela enfrentou antes de encontrar aquelas folhas descartadas no lixo?
A trajetória entre o canavial e o primeiro concurso passou por diferentes trabalhos e períodos de enorme instabilidade. Antônia cursou o magistério em um internato religioso e, para ajudar a pagar os estudos, trabalhou fazendo limpeza na própria escola e dando aulas de reforço. Depois do ensino médio, mudou-se para Belo Horizonte em busca de novas oportunidades.
Algumas das etapas documentadas desse período foram:
- Trabalho no corte de cana aos 12 anos
- Lavagem de roupas depois da safra
- Trabalho de limpeza durante o magistério
- Mudança para Belo Horizonte
- Trabalho como empregada doméstica
- Preparação para um concurso do Judiciário
O vídeo publicado pela Associação dos Magistrados Brasileiros mostra Antônia Faleiros falando sobre sua trajetória e sobre o papel social da magistratura. O material complementa esta história porque apresenta a própria juíza, décadas depois daquele início no trabalho rural, refletindo sobre a profissão que passou a exercer.
Como Antônia Faleiros estudou para o concurso usando material encontrado no lixo?
Em Belo Horizonte, Antônia chegou a passar meses sem uma moradia estável. Segundo contou à Folha de S.Paulo, usava um ponto de ônibus como abrigo durante a noite e fingia esperar uma condução. Depois, o trabalho como empregada doméstica ofereceu um quarto onde poderia morar. Foi nessa fase que encontrou em um jornal o anúncio de um concurso público.
Ela não tinha dinheiro para comprar a apostila preparatória. Em vez de desistir, recolheu folhas que haviam sido descartadas por uma copiadora ligada a um cursinho e passou a estudar aquele material. A reportagem da Folha de S.Paulo registra que eram folhas descartadas e borradas, não propriamente “livros encontrados em um lixão”, como algumas versões posteriores resumiram a história. Em 1984, aos 21 anos, ela foi aprovada em terceiro lugar para oficial de justiça do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
Por que a história do primeiro lugar em um concurso federal está incorreta?
Esse é o principal detalhe que precisava ser corrigido na pauta. O concurso que representou a primeira grande virada na vida de Antônia não foi federal. Tratava-se de uma seleção para oficial de justiça do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, portanto ligada ao Judiciário estadual. Além disso, ela não ficou em primeiro lugar, mas em terceiro.
A correção não diminui a dimensão da conquista. Antônia havia passado pelo trabalho infantil rural, por empregos de baixa remuneração e por um período sem moradia estável antes de disputar uma vaga pública. O resultado permitiu que ela entrasse profissionalmente no Judiciário e abrisse caminho para a formação universitária que viria depois.
| Etapa | O que aconteceu | Mudança na trajetória |
|---|---|---|
| Infância | Trabalhou no corte de cana aos 12 anos | Precisou conciliar sobrevivência e desejo de estudar |
| Belo Horizonte | Trabalhou como doméstica e estudou material descartado | Conseguiu preparar-se para um concurso público |
| 1984 | Ficou em terceiro lugar para oficial de justiça | Entrou profissionalmente no Judiciário mineiro |
| 2002 | Foi aprovada na magistratura da Bahia | Iniciou sua carreira como juíza de direito |
Como Antônia Faleiros conseguiu chegar da função de oficial de justiça à magistratura?
Depois da aprovação de 1984, Antônia começou a estudar Direito na Universidade Federal de Minas Gerais e concluiu a graduação em 1991. Sua carreira jurídica não seguiu uma linha única: trabalhou na advocacia, exerceu funções como delegada e também atuou como procuradora do INSS antes de alcançar a magistratura.
O passo decisivo aconteceu em 2002. O próprio Tribunal de Justiça da Bahia confirma que Antônia foi aprovada naquele ano no concurso para a magistratura estadual. No fim de 2002, tomou posse como juíza. Décadas depois de ter interrompido os estudos na infância, passou a ocupar justamente um dos cargos jurídicos mais exigentes do serviço público brasileiro.

O que aconteceu depois que a antiga cortadora de cana se tornou juíza?
Antônia construiu carreira no Tribunal de Justiça da Bahia e passou a atuar também em iniciativas sociais e acadêmicas. Tornou-se mestre em Segurança Pública, Justiça e Cidadania pela Universidade Federal da Bahia, além de professora e palestrante. Em 2022, recebeu o Prêmio Maria Felipa pelo trabalho desenvolvido em defesa de direitos e no enfrentamento ao racismo.
A história verdadeira, portanto, difere em detalhes importantes daquela versão que circula nas redes. Não houve primeiro lugar em concurso federal, nem há necessidade de transformar folhas descartadas em uma coleção inteira de livros encontrados num lixão. O que está documentado já é suficientemente extraordinário: uma menina que trabalhou cortando cana aos 12 anos enfrentou pobreza, trabalhos precários e períodos sem moradia, estudou com folhas descartadas porque não podia comprar uma apostila, ficou em terceiro lugar em um concurso do Judiciário e, anos depois, tornou-se juíza.
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