A enorme floresta que parece ter milhares de árvores mas compartilha um único sistema radicular
Milhares de troncos geneticamente idênticos surgem de um sistema subterrâneo compartilhado por uma gigantesca colônia de álamo-tremedor
No centro-sul de Utah, nos Estados Unidos, existe uma extensa área de álamos-tremedores que à primeira vista parece uma floresta comum. Pando é, na verdade, uma colônia clonal de Populus tremuloides, formada por milhares de troncos geneticamente idênticos que surgem de um mesmo organismo subterrâneo, espalhado por dezenas de hectares no Fishlake National Forest.
Como Pando pode parecer uma floresta inteira sendo um único clone?
O álamo-tremedor consegue se reproduzir por sementes, mas também por brotações vegetativas. Em muitas populações do oeste da América do Norte, novos caules surgem diretamente de raízes já estabelecidas, produzindo conjuntos de troncos chamados rametes. Esses troncos parecem árvores independentes, embora pertençam ao mesmo indivíduo genético.
No caso de Pando, estudos com marcadores genéticos confirmaram que uma enorme área corresponde essencialmente ao mesmo genótipo. A colônia cobre cerca de 43 hectares, aproximadamente 106 acres, e estimativas clássicas indicam algo em torno de 47 mil caules. O conjunto tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de crescimento clonal em plantas.
Como as raízes fazem novos troncos surgirem pelo terreno?
As raízes laterais do álamo-tremedor carregam tecidos capazes de originar novos brotos. Quando certas condições ambientais ou perturbações reduzem a influência hormonal exercida pelos caules existentes, gemas associadas às raízes podem se desenvolver e atravessar o solo, formando novos troncos acima da superfície.
Esse mecanismo é chamado de brotação radicular. Ele permite que uma colônia continue ocupando o terreno mesmo quando caules antigos morrem. Fogo, cortes ou outros eventos que eliminam parte da copa podem favorecer uma forte resposta de brotação, desde que o sistema subterrâneo permaneça vivo e com reservas suficientes.
- Raízes laterais espalham-se sob o solo;
- Gemas radiculares podem iniciar novos brotos;
- Cada broto pode formar um novo tronco;
- Os troncos resultantes permanecem geneticamente ligados ao mesmo clone.
Este vídeo da PBS Nature apresenta a colônia e explica por que a área não é simplesmente uma floresta formada por árvores independentes.
Por que Pando consegue sobreviver mesmo quando alguns troncos morrem?
A longevidade de uma colônia clonal não depende da sobrevivência permanente de cada tronco. Os caules acima do solo envelhecem, caem e podem ser substituídos por novos brotos, enquanto partes do sistema radicular continuam ativas. Por isso, a idade de um único tronco não representa necessariamente a idade do clone completo.
Essa característica também torna difícil determinar a idade exata da colônia. Pesquisadores consideram que ela pode ter persistido por muito tempo por renovação vegetativa, mas estimativas muito elevadas de idade permanecem incertas. Não existe um método simples que permita datar diretamente todo o sistema radicular.
Quais problemas ameaçam a renovação da colônia?
O principal desafio não é apenas manter os troncos adultos, mas permitir que novas brotações cheguem à maturidade. Estudos de campo mostram que a herbivoria por grandes ungulados pode consumir repetidamente os brotos jovens, impedindo que muitos cresçam o suficiente para substituir caules que morrem.
A Utah State University acompanha projetos de recuperação da colônia, incluindo áreas protegidas para reduzir a herbivoria. Os resultados mostram melhor recrutamento em alguns setores cercados, embora a conservação dependa também da estrutura da vegetação, dos distúrbios e do manejo de longo prazo.

Quais números ajudam a dimensionar Pando?
A escala ajuda a entender por que esse clone chama tanta atenção. A área estimada é de aproximadamente 43 hectares, e levantamentos clássicos calcularam cerca de 47 mil troncos. Uma estimativa amplamente citada para sua massa chega a aproximadamente 5,8 milhões de quilos, embora esse número resulte de cálculos indiretos.
Um estudo genético publicado em 2008 foi importante porque testou a hipótese de que a área correspondia realmente a um único indivíduo genético. Amostras coletadas dentro e ao redor dos limites conhecidos confirmaram amplamente o mesmo genótipo na área atribuída ao clone.
Por que esse sistema clonal é importante para entender as florestas?
O caso mostra que aquilo que enxergamos como várias árvores pode representar apenas a parte aérea de um organismo muito maior. Em espécies clonais, raízes, brotos e caules podem formar uma rede biologicamente integrada, capaz de persistir por meio da renovação contínua das estruturas visíveis.
Estudar essas colônias também ajuda pesquisadores a compreender regeneração, resposta a distúrbios, herbivoria e mudanças na estrutura das florestas. O álamo-tremedor é especialmente importante porque sua capacidade de produzir brotos radiculares influencia a recuperação de ecossistemas em grandes áreas do oeste norte-americano.
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