A cientista sem doutorado recusada em laboratórios que criou medicamentos vitais e venceu o Prêmio Nobel
Gertrude Elion superou décadas de barreiras e ajudou a desenvolver tratamentos contra leucemia, gota, herpes e rejeição de transplantes
Quando Gertrude Elion tentou entrar no mundo da pesquisa, ouviu repetidas vezes que laboratórios não contratavam mulheres para trabalhar com química. Sem dinheiro para uma formação acadêmica longa e sem o doutorado exigido por muitas instituições, ela aceitou funções modestas enquanto estudava à noite. Décadas depois, os medicamentos desenvolvidos por sua equipe mudariam o tratamento da leucemia, da gota, do herpes e da rejeição de órgãos transplantados.
Quem foi Gertrude Elion antes de chegar aos grandes laboratórios?
Gertrude Belle Elion nasceu em Nova York, em 23 de janeiro de 1918. Ainda adolescente, perdeu o avô para o câncer, experiência que despertou seu interesse pela busca de tratamentos para doenças graves. Ela estudou química no Hunter College, uma instituição pública que permitiu sua formação mesmo durante um período de dificuldades financeiras vivido pela família.
Depois de concluir a graduação em 1937, encontrou um mercado pouco disposto a contratar mulheres como pesquisadoras. Passou por entrevistas nas quais sua capacidade era ignorada por causa do gênero e trabalhou como professora substituta, secretária, analista de alimentos e assistente de laboratório sem remuneração. À noite e nos fins de semana, continuou estudando até obter o mestrado em química pela Universidade de Nova York, em 1941.
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Por que Gertrude Elion nunca concluiu um doutorado formal?
Elion chegou a frequentar um programa de doutorado enquanto trabalhava na indústria farmacêutica. Depois de alguns anos, a instituição informou que ela teria de abandonar o emprego e dedicar-se aos estudos em tempo integral. A cientista decidiu permanecer no laboratório, onde já participava de pesquisas que poderiam resultar em novos medicamentos.
- Graduação em química concluída em 1937
- Mestrado obtido em 1941
- Entrada na Burroughs Wellcome em 1944
- Doutorado interrompido para continuar trabalhando
- Liderança de um departamento de pesquisa a partir de 1967
- Prêmio Nobel de Medicina recebido em 1988
O vídeo “Gertrude Elion: Good Medicine”, publicado pelo canal CUNY Laureates, apresenta a trajetória da cientista e mostra como suas pesquisas contribuíram para tratamentos contra o câncer e outras doenças.
A ausência do título não impediu seu crescimento profissional. Em 1944, ela foi contratada como assistente de George Hitchings na farmacêutica Burroughs Wellcome. O pesquisador permitiu que ela aprendesse bioquímica, farmacologia, imunologia e virologia dentro do próprio trabalho, transformando uma posição inicial relativamente modesta em uma parceria científica que duraria décadas.
Como uma nova maneira de criar medicamentos mudou sua carreira?
Naquela época, muitas substâncias eram testadas contra doenças por tentativa e erro. Elion e Hitchings adotaram uma abordagem diferente: estudavam as diferenças bioquímicas entre células humanas normais e células cancerosas, bactérias, parasitas ou vírus. Depois, projetavam moléculas capazes de interferir preferencialmente nos processos usados pelo alvo.
Uma parte importante da pesquisa envolvia as purinas, componentes utilizados na formação do DNA. Como células cancerosas se multiplicam rapidamente, precisam produzir grandes quantidades de material genético. A equipe desenvolveu compostos semelhantes às purinas naturais, mas capazes de interromper esse processo, criando uma forma mais racional e direcionada de descobrir medicamentos.
Quais medicamentos nasceram das pesquisas de Gertrude Elion?
Um dos maiores resultados foi a 6-mercaptopurina, conhecida como 6-MP. O composto conseguiu produzir remissões em crianças com leucemia aguda, embora os primeiros resultados ainda fossem temporários quando o medicamento era utilizado sozinho. Posteriormente, ele passou a integrar combinações terapêuticas que ajudaram a transformar o tratamento da leucemia infantil.
Outras pesquisas realizadas por Elion e seus colaboradores levaram à azatioprina, utilizada para reduzir a rejeição em transplantes, ao alopurinol, empregado no controle da gota, e ao aciclovir, que marcou uma mudança importante no tratamento do herpes. Ao longo da carreira, seu nome esteve associado a dezenas de patentes e a medicamentos utilizados em áreas muito diferentes da medicina.
Como Gertrude Elion ajudou a mudar o tratamento da leucemia?
A 6-mercaptopurina interferia na produção dos ácidos nucleicos necessários à multiplicação celular. Como as células leucêmicas cresciam rapidamente, o medicamento conseguia reduzir sua expansão e provocar remissões. O resultado não representava uma cura isolada, mas ofereceu aos médicos uma ferramenta que não existia anteriormente e abriu espaço para esquemas terapêuticos mais eficientes.
Com o avanço da oncologia, a 6-MP passou a ser combinada com outros medicamentos. A estratégia de atacar a doença por diferentes mecanismos aumentou a duração das remissões e contribuiu para melhorar a sobrevivência de crianças com leucemia linfoblástica aguda. O composto desenvolvido na década de 1950 continua fazendo parte de determinados protocolos modernos.

Por que uma cientista sem doutorado recebeu o Prêmio Nobel?
Em 1988, Elion dividiu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina com George Hitchings e James Black. O reconhecimento não foi concedido por apenas um medicamento, mas pelos princípios usados no desenvolvimento de tratamentos. A abordagem demonstrou que o conhecimento sobre processos celulares poderia orientar a criação de moléculas mais seletivas, reduzindo a dependência de testes aleatórios.
A biografia oficial do Prêmio Nobel registra a trajetória de uma pesquisadora que começou trabalhando em condições precárias, recusou abandonar o laboratório para buscar um título acadêmico e chegou à liderança científica. Elion morreu em 1999, deixando uma história na qual o diploma que faltava perdeu importância diante dos medicamentos, das patentes e das vidas transformadas por suas descobertas.
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