A cidade que foi escondida por décadas devido a uma barragem na Turquia
Zeugma foi uma cidade estratégica entre Oriente e Ocidente. Veja como arqueólogos salvaram seus tesouros antes da inundação
Às margens do rio Eufrates, no sudeste da Turquia, a antiga cidade de Zeugma, fundada por um general de Alexandre, o Grande, ressurgiu no fim do século XX quando a construção de uma barragem ameaçou submergir para sempre suas pontes comerciais, muralhas monumentais, vilas luxuosas e um impressionante conjunto de mosaicos, transformando o local em um dos maiores resgates arqueológicos do mundo contemporâneo.
O que foi Zeugma e qual sua importância estratégica entre Oriente e Ocidente
Zeugma nasceu por volta de 300 a.C., quando Seleuco I estabeleceu a cidade numa importante travessia do Eufrates. O nome, que significa “ponte” em grego, reflete sua função como elo entre rotas comerciais que conectavam Mediterrâneo, Mesopotâmia e Ásia.
De um lado do rio ficava Seleucia/Zeugma, na encosta; do outro, Apamea, na planície, formando cidades gêmeas que controlavam trechos da Rota da Seda. Sob domínio romano, a presença da Quarta Legião Scythica impulsionou a economia local e consolidou Zeugma como centro urbano rico e militarmente estratégico.

Como o lago artificial levou a uma corrida arqueológica em Zeugma
Durante séculos, Zeugma permaneceu enterrada até que, nos anos 1990, o projeto de uma grande represa em Birecik alertou arqueólogos para o risco de inundação definitiva do sítio. Em 1994, o pesquisador David Kennedy destacou que boa parte da antiga cidade desapareceria sob o novo lago.
A partir de 1995, equipes turcas e francesas intensificaram escavações de emergência, priorizando as áreas que seriam inundadas mais rapidamente. O vilarejo moderno de Belkis foi progressivamente abandonado, enquanto especialistas atuavam sob forte pressão de tempo, registrando estruturas, artefatos e mosaicos antes da subida irreversível das águas.
Quais descobertas urbanas e tecnológicas revelaram muralhas e um “espelho” da cidade
Em Apamea, os arqueólogos encontraram muralhas helenísticas com mais de 3 km, feitas de blocos milimetricamente encaixados, sem argamassa, reforçadas por torres retangulares. Esses muros em forma de V sugerem um planejamento defensivo sofisticado, preparado para suportar ataques com catapultas e cercos prolongados.
Para entender a organização urbana sem escavações extensas, a equipe recorreu ao mapeamento magnético, que revelou ruas, quarteirões e trechos adicionais de muralha. As principais evidências dessa combinação de engenharia e tecnologia incluem:

Como funcionava o sistema de esgoto que espelhava a planta de Zeugma
Na encosta de Seleucia/Zeugma, os pesquisadores identificaram um sistema de esgoto notavelmente preservado, com uma galeria principal de até 1,5 metro de largura e 3,5 metros de altura. Um passadiço lateral permitia a circulação de trabalhadores encarregados da limpeza e manutenção do canal.
Dessa galeria partiam diversos canais secundários, ligados a ruas e quarteirões específicos, formando uma espécie de “cidade invertida” subterrânea. O traçado dos esgotos, que se estendia por cerca de 750 metros preservados, ajudou a deduzir a localização de bairros, áreas residenciais e a lógica de drenagem em direção ao Eufrates.
Se você gosta de história antiga e mistérios arqueológicos, este vídeo do History & Civilisations, com 461 mil subscritores, é feito para você. Ele explora o desaparecimento da antiga cidade de Zeugma, com descobertas e teorias que parecem escolhidas especialmente para revelar os segredos de uma civilização perdida.
Quais tesouros artísticos e mosaicos foram resgatados antes da inundação
Perto do Belkis Tepe, a escavação de emergência revelou uma luxuosa villa romana com catorze cômodos, decorada com estátuas em bronze e terracota e vastas superfícies de pinturas murais. A casa mostrava sinais de destruição por incêndio, provavelmente ligado ao ataque sassânida no século III d.C.
Entre mais de mil metros quadrados de mosaicos, destacou-se o célebre mosaico de Pasífae, com rica composição mitológica e inscrições gregas, e outra cena com Dioniso e Vitória. Para salvá-los, as equipes recortaram os pisos em módulos e os transferiram para o Museu de Gaziantep, garantindo que a “Pompeia do Oriente Próximo” não fosse totalmente engolida pelo lago artificial.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)