A cidade paulista onde quase 2 em cada 3 revestimentos cerâmicos fabricados no Brasil saem do mesmo polo transformou a argila encontrada no próprio solo em uma indústria de escala nacional
Argila local, tecnologia e fábricas concentradas fizeram uma cidade pequena dar nome a um polo responsável por quase 65% da produção nacional.
Com pouco mais de 23 mil habitantes, Santa Gertrudes dá nome a um polo industrial responsável por quase dois terços dos revestimentos cerâmicos produzidos no Brasil. Argila abundante, tecnologia e concentração de fábricas transformaram uma atividade iniciada há cerca de um século em negócio de escala nacional.
Como uma cidade pequena virou nome de um polo gigante?
O IBGE estimou 23.192 moradores em 2025, mas a influência industrial ultrapassa os limites municipais. O Polo Cerâmico de Santa Gertrudes reúne fábricas também em Cordeirópolis, Rio Claro, Ipeúna, Limeira e Piracicaba, formando uma cadeia regional de mineração, produção e logística.
Em 2025, a Aspacer contabilizava 18 grupos empresariais no polo, sete deles em Santa Gertrudes. Juntos, produziam cerca de 660 milhões de m² de revestimentos por ano, volume que ajuda a explicar por que o município se tornou sinônimo do setor.

Por que a argila encontrada na região fez tanta diferença?
A produção cerâmica começou entre as décadas de 1920 e 1930. As primeiras indústrias aproveitaram a disponibilidade e a qualidade das argilas locais para fabricar telhas; depois vieram lajotas, pisos e revestimentos com processos cada vez mais mecanizados.
Boa parte da matéria-prima está ligada à Formação Corumbataí, rica em rochas argilosas adequadas à cerâmica. A proximidade entre jazidas, fábricas, rodovias e grandes mercados consumidores favoreceu a concentração industrial no centro do estado.
A evolução do polo pode ser resumida em quatro etapas:
O que significa dizer que quase dois terços saem desse polo?
A proporção não se refere apenas às fábricas dentro do município. Dados setoriais indicam que São Paulo responde por cerca de 70% da produção brasileira e que aproximadamente 92% da produção paulista está concentrada no Polo Cerâmico de Santa Gertrudes.
Combinadas, essas participações equivalem a aproximadamente 64% da produção nacional. A Anfacer também registrou a participação em cerca de 65%, o equivalente, em termos aproximados, a quase dois de cada três revestimentos fabricados no país.
Três números mostram a dimensão dessa concentração:
Como a cerâmica mudou emprego e renda na região?
Em 2025, a Aspacer estimava mais de 11 mil empregos diretos no polo e outros 50 mil indiretos em transporte, manutenção, mineração e comércio. O efeito econômico alcança municípios vizinhos e fornecedores especializados.
Santa Gertrudes concentra parte importante dessa engrenagem. Dados da entidade já mostraram que a cerâmica responde por grande parcela dos postos industriais do município, fazendo decisões sobre produção e construção civil repercutirem diretamente na economia local.
Por que Santa Gertrudes recebeu um título nacional?
Em 28 de maio de 2024, a Lei nº 14.869 declarou oficialmente Santa Gertrudes como Capital Nacional da Cerâmica de Pisos e Revestimentos. O reconhecimento federal veio depois de um título estadual semelhante, concedido em 2018.
O título é simbólico, mas traduz uma especialização econômica concreta. A trajetória de Santa Gertrudes passou de pequenas olarias e telhas para fábricas automatizadas capazes de abastecer grandes redes da construção civil brasileira.
Uma indústria desse tamanho também cria desafios?
Sim. Mineração de argila, transporte pesado e processos industriais exigem controle ambiental constante. A Cetesb mantém atenção específica ao polo devido às emissões de material particulado associadas à extração, beneficiamento e transporte de matéria-prima.
O futuro depende de equilibrar produção e empregos com redução de emissões, eficiência energética e recuperação de áreas mineradas. A mesma argila que transformou Santa Gertrudes em referência nacional também tornou a gestão ambiental parte inseparável dessa história industrial.
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