A cidade arqueológica onde milhares de casas foram construídas lado a lado sem ruas e os moradores entravam pelas aberturas dos telhados
O assentamento neolítico da Turquia transformou telhados em áreas de circulação entre casas construídas quase sem espaço entre elas
Na planície de Konya, na atual Turquia, arqueólogos encontraram um assentamento neolítico tão diferente das cidades modernas que seu próprio “sistema viário” ficava sobre as construções. Çatalhöyük reunia casas de tijolos de barro praticamente encostadas umas nas outras, sem ruas convencionais entre muitos conjuntos, enquanto aberturas nos telhados permitiam entrar nas residências por escadas.
Como Çatalhöyük conseguiu existir praticamente sem ruas?
O setor oriental de Çatalhöyük preserva 18 níveis de ocupação neolítica datados aproximadamente de 7400 a 6200 a.C. As construções foram erguidas, abandonadas, preenchidas e reconstruídas repetidamente, criando ao longo dos séculos o grande monte arqueológico que permanece no local.
As casas eram aproximadamente retangulares e apareciam agrupadas de maneira extremamente compacta. Em vez de corredores regulares ao nível do solo, os habitantes circulavam principalmente pelos telhados, transformando as coberturas planas em espaços fundamentais para o deslocamento dentro do assentamento.
Por que os moradores entravam nas casas pelos telhados?
Como muitas construções ficavam separadas por poucos centímetros ou diretamente agrupadas, abrir portas para ruas inexistentes não funcionaria como ocorre em uma cidade atual. A solução predominante era uma abertura no teto, alcançada por escadas, que conectava os espaços domésticos ao nível superior do conjunto.
A escada descia para o cômodo principal, frequentemente próximo de áreas destinadas ao fogo e ao preparo de alimentos. Pesquisas arqueológicas também registraram plataformas elevadas, depósitos laterais, paredes rebocadas e diferentes espaços associados às atividades cotidianas e rituais.
- Telhados funcionavam como importantes áreas de circulação.
- Escadas permitiam descer pelas aberturas superiores.
- Casas possuíam cômodo principal e, muitas vezes, espaços menores de armazenamento.
- Fornos, plataformas e áreas de trabalho faziam parte da organização doméstica.
Este vídeo com o arqueólogo Ian Hodder apresenta Çatalhöyük e explica aspectos da vida nesse assentamento de aproximadamente 9 mil anos.
O que existia dentro das casas de Çatalhöyük?
Os interiores revelam que as construções eram muito mais do que simples abrigos. Paredes e pisos recebiam revestimentos, algumas superfícies apresentavam pinturas e relevos, enquanto plataformas eram empregadas para atividades domésticas e também estavam associadas a sepultamentos realizados sob o piso.
O fogo também fazia parte da organização da residência, com lareiras e fornos encontrados principalmente no cômodo central. Além de cozinhar e dormir, moradores produziam objetos e armazenavam alimentos nesses ambientes, indicando uma intensa concentração de atividades dentro das casas.
Todas as casas realmente tinham somente entradas pelo teto?
A imagem clássica de Çatalhöyük é baseada em evidências muito sólidas de acesso pelos telhados, mas não deve ser transformada em uma regra absoluta para cada construção e cada século. Escavações encontraram pelo menos evidências de uma abertura lateral posteriormente bloqueada, sugerindo que algumas fases podem ter apresentado exceções.
Também é mais seguro chamar o lugar de grande assentamento ou aglomeração neolítica do que imaginar uma “cidade” organizada exatamente como as que surgiriam posteriormente. A UNESCO destaca justamente sua importância para compreender a transição de aldeias sedentárias para aglomerações maiores e mais complexas.

Quantas pessoas e construções existiram em Çatalhöyük?
Estimativas populacionais variam conforme o período e os critérios arqueológicos. Um relatório do projeto de escavação mencionou até aproximadamente 8 mil habitantes no grande assentamento neolítico, enquanto sua longa sequência de reconstruções significa que milhares de estruturas domésticas podem ter existido ao longo de sua história, não necessariamente todas simultaneamente.
A UNESCO descreve o sítio arqueológico de Çatalhöyük como uma propriedade de 37 hectares formada por dois montes, registrando ocupações que atravessam mais de dois milênios entre os períodos Neolítico e Calcolítico.
| Característica | Registro arqueológico |
|---|---|
| Área do sítio UNESCO | 37 hectares |
| Ocupação neolítica oriental | 7400 a 6200 a.C. |
| Níveis neolíticos | 18 níveis |
| População máxima citada pelo projeto | Até cerca de 8 mil pessoas |
Por que Çatalhöyük é tão importante para a arqueologia?
O sítio permite observar como comunidades agrícolas sedentárias organizaram moradia, alimentação, rituais, produção e convivência muito antes do modelo urbano baseado em ruas, praças e edifícios públicos monumentais tornar-se comum. Sua preservação excepcional oferece um registro detalhado desse processo.
Inscrito como Patrimônio Mundial em 2012, o local mostra que a concentração de milhares de pessoas não exigia necessariamente uma malha de ruas semelhante à atual. Em Çatalhöyük, telhados, escadas e residências densamente agrupadas produziram uma solução arquitetônica que permanece singular milhares de anos depois.
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