A árvore misteriosa cuja seiva azul-esverdeada pode concentrar cerca de 25% de níquel
Espécie da Nova Caledônia acumula quantidades extraordinárias de níquel e produz um dos látex mais incomuns já estudados pela botânica
Em uma floresta tropical da Nova Caledônia cresce a Pycnandra acuminata, uma árvore capaz de concentrar quantidades extraordinárias de níquel em seus tecidos. O detalhe mais impressionante aparece quando seu tronco é ferido: um látex azul-esverdeado revela um fenômeno botânico tão incomum que ajudou a abrir uma nova área de pesquisas sobre plantas hiperacumuladoras.
Por que a Pycnandra acuminata consegue acumular tanto níquel?
A espécie é endêmica da Nova Caledônia, arquipélago do Pacífico conhecido por extensas áreas de solos ultramáficos naturalmente ricos em metais. Nessas condições, grande parte das plantas enfrenta dificuldades para crescer, mas algumas linhagens desenvolveram mecanismos capazes de tolerar e concentrar elementos como o níquel.
A Pycnandra tornou-se um dos exemplos mais famosos desse fenômeno. Em vez de simplesmente impedir a entrada do metal, ela absorve níquel pelas raízes, transporta o elemento internamente e consegue armazená-lo em concentrações muito superiores às encontradas em plantas comuns.
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O que realmente existe dentro da seiva azul-esverdeada?
A afirmação de que a árvore possui “25% de metal puro nas veias” é imprecisa. Estudos relatam aproximadamente 20% a 25% de níquel no látex em relação à matéria seca, mas isso não significa que um quarto do líquido fresco seja formado por níquel metálico. O elemento está presente em formas químicas solúveis e associado a compostos orgânicos.
Para interpretar corretamente esse número, é importante separar três informações:
- A concentração é calculada sobre a matéria seca do látex.
- O níquel não está presente como pedaços de metal sólido.
- A coloração azul-esverdeada está relacionada aos complexos de níquel presentes no látex.
O vídeo abaixo, dedicado às plantas hiperacumuladoras, apresenta especificamente a Pycnandra acuminata e explica como algumas espécies conseguem retirar metais do solo e concentrá-los em seus tecidos. Ele também mostra por que essa árvore se tornou um dos exemplos mais marcantes desse fenômeno.
Por que a Pycnandra acuminata produz um látex azul-esverdeado?
A cor não vem de um pigmento ornamental criado pela árvore. Ela está relacionada aos complexos de níquel dissolvidos no látex. A concentração extraordinária desse elemento produz a aparência verde-azulada que tornou a espécie famosa entre botânicos e pesquisadores de hiperacumulação.
Uma revisão publicada no New Phytologist relata concentrações de aproximadamente 20% a 25% de níquel no látex e descreve como a descoberta da espécie, ainda na década de 1970, impulsionou pesquisas internacionais sobre plantas capazes de acumular metais.
Como o metal sai do solo e chega aos tecidos da árvore?
Tudo começa nas raízes. O níquel disponível no solo é absorvido e transportado pelo sistema vascular até diferentes partes da planta. Pesquisas mais recentes também estudam os laticíferos, estruturas especializadas responsáveis pelo látex e que concentram quantidades particularmente elevadas do elemento.
| Característica | O que se sabe |
|---|---|
| Origem | Nova Caledônia |
| Tipo de planta | Hiperacumuladora de níquel |
| Aspecto do látex | Azul-esverdeado |
| Níquel no látex | Cerca de 20% a 25% na matéria seca |
A sobrevivência depende não apenas da absorção, mas também da capacidade de controlar onde o níquel é transportado e armazenado. Esses mecanismos ajudam a evitar que concentrações elevadas do elemento provoquem danos generalizados aos processos celulares da planta.
Por que a Pycnandra acuminata desenvolveu essa capacidade tão incomum?
A função evolutiva exata da hiperacumulação ainda não está completamente esclarecida. Pesquisadores discutem hipóteses como maior tolerância aos solos metalíferos e uma possível defesa contra herbívoros ou patógenos, mas não existe uma única explicação comprovada que resolva o fenômeno para todas as espécies hiperacumuladoras.
Isso torna a árvore ainda mais interessante. Ela não apenas suporta um ambiente hostil, mas incorporou ao próprio funcionamento uma quantidade de níquel que seria prejudicial para muitas outras plantas. Entender essa adaptação pode revelar novos detalhes sobre transporte e tolerância a metais.

Plantas como essa poderiam ser usadas para extrair metais do solo?
A capacidade das hiperacumuladoras levou ao desenvolvimento de pesquisas sobre fitomineração, também chamada de agromineração. Nesse conceito, determinadas plantas são cultivadas em solos ricos em metais, acumulam esses elementos na biomassa e depois podem ser colhidas para permitir sua recuperação.
Isso não significa, porém, que cortar exemplares selvagens dessa árvore para coletar látex seja uma técnica comercial recomendada. O maior valor da espécie está em ajudar a ciência a compreender uma habilidade biológica extraordinária: transformar um ambiente naturalmente rico em níquel em uma condição na qual ela não apenas sobrevive, mas prospera.
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