A Amazônia parecia mais protegida justamente onde o calor acelerou: 700 mil km² registram extremos subindo 0,75°C por década
A região fica longe do arco do desmatamento, o que aponta emissões globais, não uso do solo local, como causa

O que você vai ver
- O que a análise de 43 anos identificou na região central-norte.
- Por que essa região era considerada relativamente protegida.
- Por que os extremos não aparecem nas médias de temperatura da Amazônia.
- Por que pesquisadores associam esse aumento a emissões globais, não ao desmatamento local.
- Por que o El Niño de 2026 preocupa ainda mais essa região específica.
A Amazônia parecia mais protegida justamente na região onde o calor extremo acelerou mais rápido: cerca de 700 mil quilômetros quadrados de floresta bem preservada registram aumento de temperaturas extremas na casa de 0,75°C por década, ritmo muito mais rápido do que o esperado para uma área sem grande pressão de desmatamento.
O que a análise de 43 anos identificou na região central-norte?
Um estudo publicado na revista Communications Earth & Environment analisou 43 anos de dados e identificou uma área de mais de 700 mil quilômetros quadrados, equivalente a 10% de toda a bacia amazônica e maior do que o território do Afeganistão, onde temperaturas extremas na estação seca aumentaram pelo menos 0,75°C por década.
Segundo o phys.org, essa mesma região acumulou um aumento total superior a 3,22°C desde 1981 nos episódios de calor extremo, ritmo de crescimento muito mais acelerado do que o observado em outras partes da bacia amazônica ao longo do mesmo período de mais de quatro décadas de dados analisados.

Por que essa região era considerada relativamente protegida?
A região central-norte da Amazônia identificada pelo estudo se caracteriza por alta cobertura florestal e pela presença de extensos territórios indígenas, condição que normalmente associaria essa área a maior proteção ambiental e, supostamente, a menor vulnerabilidade a mudanças climáticas extremas em comparação com áreas mais desmatadas.
Justamente por ficar distante do chamado “arco do desmatamento”, concentração de perda florestal ao sul e ao leste da bacia amazônica, essa região central-norte não era considerada prioritária em avaliações anteriores de risco climático, expectativa que o novo estudo contraria diretamente ao revelá-la como o ponto de aumento mais rápido de extremos de calor.
Por que os extremos não aparecem nas médias de temperatura da Amazônia?
A temperatura média da Amazônia como um todo vem subindo a um ritmo de cerca de 0,21°C por década, taxa alinhada ao aquecimento global médio e que, isoladamente, não revelaria a existência de um ponto de aumento tão mais acelerado quanto o observado especificamente na região central-norte.
Essa diferença explica por que avaliações baseadas apenas em médias regionais amplas podem mascarar hotspots específicos de calor extremo, já que um aumento concentrado numa área menor, mesmo que expressivo, tende a se diluir estatisticamente quando misturado aos dados de toda a vasta extensão da bacia amazônica.
Por que pesquisadores associam esse aumento a emissões globais, não ao desmatamento local?
Como a região central-norte identificada pelo estudo fica distante do arco do desmatamento e mantém alta cobertura florestal preservada, pesquisadores atribuem o aumento acelerado de calor extremo diretamente a emissões climáticas globais, e não a mudanças no uso do solo ocorridas localmente dentro dessa área específica.
Essa conclusão é relevante porque reposiciona o debate sobre proteção da Amazônia: mesmo florestas bem preservadas e territórios indígenas mantidos intactos não estão isolados dos efeitos do aquecimento global, já que as mudanças climáticas de origem mais ampla continuam afetando essas áreas independentemente do nível de conservação local mantido pelas comunidades da região.

Por que o El Niño de 2026 preocupa ainda mais essa região específica?
O El Niño esperado para 2026 é descrito como potencialmente o maior já registrado, fenômeno climático que tende a intensificar ainda mais secas e ondas de calor na Amazônia, preocupação particularmente relevante para a região central-norte, que já vinha registrando aumento acelerado de extremos mesmo antes da chegada desse evento climático específico.
Essa combinação entre uma tendência de aquecimento já em curso na região e a chegada de um El Niño potencialmente recorde levanta a possibilidade de que a área identificada pelo estudo enfrente, já em 2026, níveis de estresse térmico e hídrico ainda mais severos do que os registrados durante a última grande seca amazônica, ocorrida em 2024.
- Um estudo de 43 anos identificou 700 mil km² na Amazônia central-norte com aumento acelerado de calor extremo.
- A região acumulou alta de mais de 3,22°C em extremos de calor desde 1981, distante do arco do desmatamento.
- A média geral da Amazônia sobe apenas 0,21°C por década, mascarando esse hotspot específico.
- Pesquisadores associam o aumento a emissões globais, e o El Niño de 2026 pode agravar ainda mais a situação.
Limites físicos que os modelos científicos atuais talvez ainda não capturem corretamente também aparecem no relato sobre as turfeiras que podem quebrar sob o próprio peso antes de guardar todo o carbono esperado.
Mais detalhes sobre o estudo do hotspot amazônico estão disponíveis no site oficial do Phys.org.
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